domingo, 19 de abril de 2009

Eleições no Haiti - Abril de 2009






“Fraude Eleitoral”, ou a minha experiência como Observador Internacional

Em primeiro lugar, nem sei se estou autorizado a expor as idéias que coloco aqui, mas ainda assim correrei o risco de expor a minha opinião sincera, para além de posições oficiais que tenha a defender, como sempre fiz aqui neste blog. Sempre pautei o lugar deste blog em minha temporada aqui no Haiti como um espaço livre das constrições do papel de intelectual acadêmico, bem como de qualquer relação com a presença brasileira no Haiti nos mais diversos níveis. Não quero também dramatizar o quadro, dizendo que estou fazendo algo contra a lei ou passível de censura. Pelo contrário, quero apenas deixar claro que não estou falando oficialmente, mas não posso me furtar do compromisso de falar daquilo que presenciei, passemos portanto ao que interessa aqui, sem mais delongas.


O título desta postagem é de fato uma provocação. A palavra “fraude” aparece entre aspas, porque há sempre um entendimento de que “fraude eleitoral” seja um desvio nas regras de um procedimento legal aprovado, em outras palavras adotei o significado estrito de fraude que ora exponho, segundo o Dicionário Houaiss fraude é qualquer ato ardiloso, enganoso, de má fé com o intuito de ludibriar outrem ou de não cumpri determinado dever(...) ver tb. sinonímia de ardil e mentira (...) ver (...) antonímia de verdade. A fraude eleitoral aqui neste caso não se trata de um desvio procedimental, mas de fato de que as eleições senatoriais que se realizaram no Haiti neste domingo, dia 19 de abril de 2009, são uma mentira, um ardil, um ato enganoso que visa ludibriar outrem.


Exponho a minha visão dos fatos que pode contrariar o que alguns jornais virão dizer, que “a despeito de alguns incidentes isolados, o pleito tenha ocorrido dentro da normalidade democrática e num clima de respeito às leis”. É possível que se diga isso e, de fato, isso não contraria demais a verdade, não fosse uma série de movimentos que antecederam o presente processo eleitoral, que maculam qualquer idéia de democracia e de justiça, que ferem os princípios liberais-democráticos tão caros à cosmologia ocidental, que parecem que aqui no Haiti chegaram ao paroxismo de sua mentira.


Retorno um pouco no tempo para que possamos discutir de fato como manobras “democráticas” e de caráter “legalista” roubaram deste pleito o mínimo de legitimidade que ele pudesse ter. Em primeiro lugar, as divisões e problemas internos da maior força política do país, o Fanmi Lavalas, partido que dá sustentação ao deposto presidente Jean Bertrand Aristide, seu principal líder, provocaram a apresentação por parte deste grupo político de três listas de candidatos diferentes, o que impediu o registro de suas candidaturas para uma participação nestas eleições senatoriais. Explicando melhor, seria como se o PMDB apresentasse três listas de candidatos diferentes, uma da facção governista, outra da facção de oposição e outra de uma terceira, que se classificaria como independente. Como a lei eleitoral brasileira não permita isso, uma das três listas seria aprovada ou a participação do partido seria negada, e o partido não poderia apresentar candidatos. É claro que tal impasse produziria uma crise política sem precedentes no país, e uma eleição que deixasse de fora aquele que se supõe o maior partido político do país geraria infinitas distorções no quadro eleitoral.


Do ponto de vista legal, no entanto, não haveria nada demais em negar tal participação, posto que fosse uma flagrante violação da lei eleitoral. No entanto, a política é uma arte, não no sentido da tradição platônica de um conjunto racional de técnicas visando um fim prático, mas no sentido aristotélico, que se opõe à ciência, uma habilidade particular de produzir um conhecimento não necessariamente aplicado. Em outras palavras, as artes da política nem sempre podem e devem se submeter ao legalismo exagerado, mas considerar os diversos aspectos envolvidos em uma questão: a “fragilidade” da democracia no Haiti não deveria permitir que a força política de maior apelo e expressão popular ficasse de fora de nenhum processo político, sobretudo de um processo eleitoral, sob pena de deslegitimar quaisquer atos que se realizem.


Retirar o Lavalas de Aristide da eleição é negar a possibilidade de um processo político verdadeiramente democrático no Haiti. Qualquer explicação de caráter legal para isto reforça a mentira e a fraude da democracia no Haiti. Sem Lavalas e Aristide não há possibilidade de produzir qualquer transformação política séria no país. Não sou defensor do ex-presidente Aristide, pelo contrário, aqui neste mesmo blog sempre expus a minha percepção sobre as suas ambiguidades e seu caráter (com a licença do termo) “populista”. Porém, também nunca ousei aqui negar o valor e a importância de sua popularidade junto às massas dos bairros populares e favelas do Haiti. E reconhecendo isso, penso que a comunidade internacional ao aceitar a ausência do Lavalas na eleição cometeu um erro fatal: deslegitimou o processo eleitoral que era deflagrado com o registro das candidaturas.


Durante esta semana circularam em diversos lugares do país, sobretudo nas regiões onde o Lavalas seria a maior força política, uma série de panfletos (foto) com ameaças de violência contra quem participasse do processo eleitoral. O Lavalas realmente estava organizando suas bases políticas para enfraquecer o processo eleitoral, inclusive através de declarações atribuídas a Aristide de que estas eleições não eram legítimas e que se fizesse neste dia uma jornada de reflexão junto às famílias, que não saíssem às ruas para votar, que permanecessem em suas casas refletindo sobre os rumos da democracia e da política no Haiti. De fato, a operação que seria deflagrada pelo Lavalas chamava-se Bay lari la blanch (traduzido “Deixar as ruas vazias”), e tal nome foi apropriado pelos responsáveis por supostos panfletos que ameaçavam de morte qualquer um que saísse às ruas para participar da eleição. A principal recomendação era que as pessoas colocassem seus nomes nas solas dos sapatos, para que em caso de morte fossem reconhecidas.


Conversando com algumas pessoas durante a semana, perguntei por que muitos não iriam votar. A maioria afirmava que não acreditava nos políticos, e sendo o voto facultativo, estes preferiam ficar em casa no domingo, sem sair às ruas. Alguns falaram das ameaças em seus bairros, locais onde o Lavalas seria a força majoritária e que, portanto, não era conveniente participar da eleição. Esperava, no entanto, que no domingo o quadro fosse diferente, pelo menos entre aqueles que se alistaram para votar. Ao ouvir o rádio pela manhã, percebi que muitas pessoas não sabiam onde seriam seus locais de votação e, para piorar, houve a informação de que os tap taps e caminhonetes não poderiam circular no domingo da eleição, e as motocicletas foram interditadas de circular na noite de sábado. Logo, as pessoas além de não saber onde votar, não havia meios de transportes disponíveis para se deslocar rumo às suas seções eleitorais.


Não bastasse isso tudo, o presidente do país, René Garcia Preval, às vésperas da eleição, deu uma declaração de que os cidadãos que não quisessem ir votar tinham este direito e que participaria de eleição quem quisesse. Tal declaração não seria problema, se não fosse Preval o Supremo Mandatário da Nação, e não desse uma declaração que deslegitimava o processo eleitoral que se realizaria no domingo. Embora a Primeira Ministra Michelle Pierre-Louis tenha reforçado a importância da participação nas eleições, o estrago já estava feito: nem mesmo os políticos do país acreditam no papel do processo eleitoral.


Tudo isso poderiam ser ilações de um observador distante dos fatos, que estaria tirando conclusões a partir de suposições e idéias distantes da realidade. Porém, ao sair à rua numa viatura da Embaixada do Brasil no Haiti, na condição de observador internacional, tive a oportunidade de falar diretamente com a população envolvida na eleição, falei com pessoas que atuavam como mesários, chefes de seção e, especialmente, com eleitores (ou “não eleitores”) presentes nestas seções eleitorais.


Na primeira ida a uma seção eleitoral em um prédio onde funciona oanexo da previdência social e uma unidade da Universidade do Estado, no Champ Mars, fiz algumas perguntas, e descobri que uma seção eleitoral tinha apenas 07 (sete) eleitores inscritos. Neste local pude ainda ver (e fotografar) uma cédula eleitoral. As urnas são transparentes e pode ser visto quantos votos há no seu interior. Algumas pessoas me pediram dinheiro e fizeram piadas e gozações com o grupo de blancs ali presente.


Fomos então à Faculdade de Medicina, onde estavam concentradas outras zonas eleitorais, lá conversei com mesários também, e foi lá que descobri que os mesários não estão inscritos para votar e, a maioria deles está trabalhando na eleição por conta do pagamento que foi oferecido aqueles que trabalhassem na eleição. Só então entendi porque algumas pessoas me interrogaram “porque eu não ofereci este trabalho para eles”, ainda que lhes explicasse que estava como voluntário, que aceitara um convite do Embaixador. Nesta seção, no entanto, havia mais de 400 (quatrocentos) inscritos para votar, porém, por volta das 11:00 h da manhã houvesse apenas duas pessoas comparecido para votar.


De lá saímos para a região de Delmas 19, onde encontramos com uma guarnição militar dos Fuzileiros Navais brasileiros. Dali, nos encaminhamos para a região próxima ao Carrefour Trois Mains, num grande prédio anteriormente abandonado, ocupado, onde nos pilotis há uma grande zona eleitoral. Neste lugar fomos abordados por um sujeito baixinho, irritado, que começou a falar conosco: “Sem Aristide, não há eleição. Sem Lavalas, a eleição é uma mentira. Queremos que Aristide volte. Se ele voltar, o país vai se libertar, o país vai melhorar. Aristide é a vida!”. Fiquei um pouco impressionado, e mais ainda assustado, quando fui percebendo que se formava uma roda à nossa volta. E as pessoas reforçavam o que ele dizia. Um pessoa que estava conosco perguntou, já que ele não acreditava no processo eleitoral, o que estava fazendo ali? Eu não respondi e nem fiz tal pergunta. Achei que ela insultava o homem.


Fomos ainda a duas escolas na região. Os mesmos discursos. Numa delas, porém, fomos abordados, eu e uma colega, por uma repórter da Associated Press. Compreendendo o protocolo, sabendo que o Embaixador era o chefe da equipe, perguntei a um dos seguranças se nós poderíamos falar. Minha colega se recusava a falar, porém, o segurança se antecipou dizendo que não poderíamos falar com a imprensa, que deixássemos o Embaixador falar. Sinceramente, fiquei um pouco aborrecido com aquilo que interpretei como algum tipo de censura, pois realmente o que vira até ali, deslegitimava totalmente o processo eleitoral. Sabia que não devia falar isso, porém, as perguntas da repórter tornavam mais claro aquilo que vinha percebendo: ela perguntou se estávamos cientes de que no Departamento Central as eleições haviam sido canceladas por conta de alguns incidentes e pela total falta de quórum. Saí dali realmente irritado com tudo. Na escola seguinte, permaneci sentado num banco, sem ir às seções eleitorais. Refletindo. Dali iríamos para a cidade de Cabaret, na rota para Gonaives.


Em Cabaret, por fim, mais um encontro interessante com a população. De novo, não entrei nas seções eleitorais, que em todos os lugares pareciam esvaziadas e sem qualquer interesse. Veio em minha direção um homem falando em créole. Boa parte das pessoas não sabe que falo (com relativa fluência) esta língua. Então, começam a falar a esmo, como se eu não lhes compreendesse. No entanto, ao lhes perguntar, sempre em créole, o que estão dizendo, começam a falar, primeiro em francês, que é quando lhes digo que podem falar em sua língua, que sou capaz de compreender. Então as coisas se revelam...


Primeiro, o sujeito começou atacando o processo que excluiu o Lavalas, dizendo que ele era vazio e sem propósito, que não pode haver eleição sem o Lavalas. Mas isto não seria o mais importante, começou a falar dos candidatos a senador, que não eram conhecidos, que vieram à cidade uns poucos dias antes e que não eram conhecidos, por isso, como votar? Logo após, juntou-se um outro homem, mais tranquilo e falando de forma bastante esclarecedora sua posição quanto ao processo eleitoral. Disse que apesar de não ser Lavalas, achava que não podia haver eleição sem este partido, e mais ainda, que a forma que as eleição foi feita, de maneira isolada para senador, não havia qualquer chance de que as pessoas conhecessem os candidatos. Falou que quando as eleições são casadas (majistrat – prefeito, deputados e senadores) há possibilidade das lideranças locais apoiarem candidaturas e, com efeito, este apoio se traduz numa relação de confiança e credibilidade dos candidatos a senador. Ele afirmou que esta eleição “isolada” não podia ter alguma relação entre a população e os candidatos. Depois o primeiro retornou falando de Dessalines, que “somos um povo livre, que o sangue de Dessalines corre em nossas veias”. Isto, no entanto, soou como uma ironia grosseira conosco, os estrangeiros, pois ele se retirava rindo, enquanto falava estas coisas. Um outro sujeito ainda insistia sobre o Lavalas, dizendo que “Aristide deve voltar”.


A conclusão de toda esta primeira experiência como “Observador Internacional” foi impressionante. Em primeiro lugar, estas eleições são realmente uma armadilha cruel, cujo resultado, seja ele qual for, sempre reforçará estigmas e visões distorcidas sobre o Haiti: “os haitianos não participam da política, abandonam o país a própria sorte, e não tomam para si o dever de transformar a sua vida”. Esta é uma mentira, que este processo eleitoral não sustenta. Pelo contrário, estas eleições foram feitas desde o seu início para fracassar, interesses diversos tanto das forças políticas locais – entre elas, curiosamente do próprio Lavalas, por razões distintas, da comunidade internacional que se esmera em reforçar a farsa democrática ao redor do mundo, da ONU e OEA, que mantém o “Circo Haiti” de pé, fazendo o seu espetáculo de “manutenção da paz mundial”, enfim, das aspirações do chamado “Mundo Livre” que precisa da “democracia” para manter a ordem no mundo.


Em segundo lugar, as causas endógenas: o povo haitiano não participa do processo. Os partidos pouco representam no panorama político, não há representatividade, a despeito de haver dezenas de organizações políticas espalhadas por diversos lugares do país. E mesmo os indivíduos, atores políticos isolados como o Presidente Preval, o ex-primeiro ministro Alexis, figuras como o Senador Boulos, a ex-candidata à Presidência Mirlande Manigat também tem pouca representatividade, senão em setores ou grupos isolados. A única força política que tem representatividade do ponto de vista coletivo é o Lavalas e o único ator individual representativo é o próprio Aristide. Fora disso é necessária uma longa construção e um amplo debate. E por isso, mais uma vez, será penalizado o povo haitiano, “que não está habituado às instituições democráticas, que não tem os saudáveis hábitos do voto, da organização política, dos partidos organizados, etc., e que por isso não está pronto para se dirigir a si mesmo e aos seus destinos”. Caímos novamente no silogismo cruel e estigmatizante que sempre coloca o Haiti no lugar da barbárie, da recusa do mundo ocidental livre.

Por fim, reitero aqui a minha percepção de que o Haiti nem de longe é este inferno. Os erros são do governo local e talvez do próprio povo. Estes erros, porém, são também da chamada comunidade internacional que precisa legitimar o Haiti da forma que mais lhes interessa: um lugar onde ela precisa atuar e reforçar a sua importância e seu papel na defesa do chamado mundo livre. Essa é a grande fraude eleitoral que está em jogo.

Abraços a todos, feliz da vida com o Mengão na final do Carioca, quem sabe, rumo ao Penta-Tri.



P.S.: Observadores Internacionais, tal como os duendes, existem... O importante é você acreditar neles...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

De volta: O Haiti nosso de cada dia

Muita gente no Brasil sabe que minha volta ao Haiti se deu "meio contra a minha vontade"...
Não, isso não é verdade... voltei porque quis... Mas não queria tanto quanto antes...
De volta, começo a constatar, com certa irritação que todos têm teorias sobre o Haiti, inclusive eu mesmo, e cada um quer provar, quase sempre com dados empíricos, que está coberto de razão.
O Haiti não tem solução... "Eles" são diferentes de "nós"... "Eles" são assim mesmo... "Temos que ensiná-los"... Eles não estão "prontos para a civilização"...
Sim... Ouço por aqui coisas de arrepiar até um evolucionista empedernido... A diferença está presente e o mundo colonial está aqui com toda a sua força...
Há as teorias mais elaboradas, é claro, mas o senso comum grosseiro se resume a isso: uma grande divisão: o "Nós" civilizado e o "Eles" bárbaros...
Será possível que em pleno século XXI, depois de Lévi-Strauss declarar peremptoriamente, bárbaro é quem acredita na bárbarie, que o mundo insista em acreditar em algumas formas de distinção e, por que não dizer, de exclusão que se sustentem nesta forma de pensar?
Deixem o Haiti em paz. Partam daqui toda a cooperação e ajuda humanitária, a Minustah e todas as ongs... O que será do Haiti? Não sei, mas será uma excepcional chance de provar que qualquer divisão desta ordem é um acinte contra qualquer humanismo possível.
Estou irritado com os estrangeiros do Haiti, e neles me incluo, porque exotizamos o que é tão natural em qualquer lugar do mundo, porque aqui queremos achar o "exótico" e o "primitivo". O Haiti não tem nada de especial e, por isso, é muito especial... Ele apenas nos permite olhar para nós mesmo com menos condescendência, permite-nos sermos um tanto mais cruéis com o que chamamos "civilização". No Haiti as feridas estão abertas e sangrando, enquanto em nossas casas escondemos sob a cicatriz nossas carnes podres... No Haiti não, a ferida pudenda está exposta...
Quem admite olhar as suas próprias feridas? Suas mazelas e suas podridões?
Ninguém...
Azor e seu Rasin Mapou cantam: Boukman, w pa fè Bwa Kaiman pou donne peyi nan men étranger. Peyi sè pa nou. (Boukman, você não fez Bois Caiman para entregar o país nas mãos dos estrangeiros. O país é para nós)
Será????
Abraço

terça-feira, 22 de julho de 2008

Fabricando ditadores?

Na última postagem falei de Aristide, da minha interpretação sobre os eventos que fomentaram a sua queda. Outro dia, em uma conversa com um amigo pelo MSN, começamos a discutir sobre como o país poderia organizar um concerto de forças políticas para promover o desenvolvimento. Fiquei angustiado, pois não conseguia explicar a este amigo o que ocorre aqui. Primeiro, por uma total dificuldade de conhecer de fato quais as forças políticas que estão sob o tabuleiro, jogando. É fácil saber que Aristide e o Lavalas (seu ex-grupo político) jogam um papel decisivo, pelo seu peso como movimento de massa, no entanto, não conseguia identificar as forças políticas.
Quando faço a mesma pergunta aos meus interlocutores haitianos, as respostas são difusas, todos dizem que há partidos, mas deputados e senadores não são senão "homens de negócios, com interesses muito particulares e pouco interesse pela coisa pública". Insisto em perguntar pelo "espírito público", pela "idéia de república" e pela "democracia", alguns destes interlocutores só faltam rir de mim. No entanto, parece que há atores fortes no cenário político. Isso não impede, porém, que o país esteja sem um primeiro ministro há quatro meses.
Há coisa de alguns meses, pouco antes das manifestações políticas contra "Laviche" (La vie chère), o elevado preço dos alimentos, sobretudo do arroz, essencial na dieta haitiana, que acabaram por derrubar o ex-primeiro ministro Alexis, houve um intenso debate político em torno do fato de um senador daqui possuir dois passaportes ou, na verdade, pelo fato de ter nascido nos EUA, sendo filho de haitianos e que vive no Haiti, o que lhe possibilitou ter dupla nacionalidade. Este debate que se prolongou por semanas, no meu entendimento, levantava uma falsa questão, posto que boa parte de deputados e senadores do país estão nesta mesma situação: possuem um passaporte de outra nacionalidade. Aliás, imagino que boa parte dos ricos do país tem essa mesma condição: um pé do lado de fora do país. A polêmica acabou por cassar o tal senador, que supostamente seria um forte candidato à presidência, um grande empresário com influência significativa no ramo de telecomunicações local.
A queda de Alexis, que veio logo depois desta longa polêmica, nem mobilizou tanto senadores e deputados quanto o debates da dupla nacionalidade. Espanta, portanto, que após quatro meses, os parlamentares locais, tão empenhados em garantir a pureza das casas legislativas do país, evitando que "alguém que possa ser estrangeiro" ocupe posições chave na política do país, não demonstrem o mesmo empenho para escolher o novo primeiro ministro. Na verdade, demonstraram este "empenho" após a primeira indicação de Preval, o presidente do país, para o posto, recusado exatamente por "não conseguir provar a ascendência haitiana de seus pais".
Agora, Preval faz a sua segunda indicação, a intelectual Michelle Pierre-Louis. Logo que cheguei aqui, estive em um debate na Université Quisqueya, onde esta falara, fazendo uma interessante crítica aos processos de ocupação do país por forças militares estrangeiras e as quinze missões das Nações Unidas no país no período entre 1987 e 2008. Crítica da presença estrangeira no país, ela crê que o país deve procurar saídas para as crises sem recorrer à "ajuda" externa. Não descarta, porém, neste momento ainda a presença da Minustah. Ela inclusive destaca que todas as intervenções da ONU no país foram solicitadas pelos governos locais. Sua indicação, entretanto, tem sido contestada por alguns, com base em acusações de uma suposta homossexualidade, o que lhe impediria de ter a unanimidade dos votos no senado, essencial para sua homologação como primeira-ministra do país. Num programa de rádio cheguei a ouvir as palavras de um deputado que dizia que "ela não poderia ser escolhida, embora não tenha na da contra os homossexuais, não crê que este tipo de pessoa possa estar à frente de um país". Na câmara dos deputados, seu nome passou com maioria absoluta dos votos, com apenas um voto contra e abstenções de algumas forças políticas. Espera-se que o senado cumpra o seu papel e finalmente, após quatro meses sem governo, homologue o nome de Pierre-Louis no posto de primeiro ministro.
O título da postagem é, de fato, uma provocação...
Provocação diante de certas situações que tenho presenciado no Haiti, onde a saída pela força quase sempre se apresenta como solução possível, onde a ausência de diálogo e de uma interlocução responsável obriga alguns atores sociais a apelar para condições onde seja necessária uma imposição pela força. Quando analisei a situação que ensejou a queda de Aristide, percebi que é possível vislumbrar um quadro curioso: um presidente democraticamente eleito, que conta com forte apoio da massa, talvez da maioria da população (pobre, principalmente) do país, é obrigado a renunciar, não sem antes armar esta massa de apoiadores para garantir o exercício de seu mandato. Sua "renúncia" é cercada de controvérsias: há uma tese de um "seqüestro" que motivou sua saída do país, seus milicianos armados são líderes criminosos das favelas e bairros pobres da capital do país, Aristide é recebido por líderes da esquerda e de facções democráticas diversas como um grande líder político. Quem é afinal, Jean Bertrand Aristide?
Eu não ouso responder, continuo com dúvidas, mas cada vez mais me parece que as resistências de alguns setores a ele forjaram a criação de um ditador. Tal como acusam Chavez de populista e proto-ditador (este, aliás, grande defensor de Aristide), porque governa com mecanismos de democracia direta e popular, não seria possível pensar em Titid (como é chamado pelo povão) desta maneira? Não sei...
O que sei é que se fosse interesse das forças políticas locais articular um concerto de forças, um pacto social e político, seria essencial que um dos interlocutores fosse Aristide, que parece ser o ator político mais evidente daqueles que são colocados em cena por aqui. O amigo com quem conversava objetou sobre o papel dos intelectuais daqui. Se não é possível identificar atores no cenário político, de fato, é fácil fazê-lo entre os intelectuais. Entretanto, as clivagens entre estes são realmente perturbadoras e impossibilitam muitas vezes o diálogo.
A indicação de uma intelectual, por exemplo, não mobilizou os intelectuais daqui em sua defesa contra a onda de rumores em torno de sua vida pessoal, e foi preciso que a reação viesse de intelectuais haitianos radicados no Canadá e nos EUA, através de um documento divulgado pela imprensa, para que os que estão aqui começassem, de modo tímido a tomar uma posição. Ouvi de alguns que não dariam uma resposta a tais rumores, exatamente para não motivar o debate em torno da vida pessoal da (futura) primeira ministra. Não sei dizer se concordo com tal atitude, que mais me parecia omissão diante dos fatos. E quando perguntei sobre a sua indicação, as respostas foram sempre evasivas, pois acham que ela não tem meios (e nem competência) de implementar políticas sérias para o desenvolvimento do país.
Assim, cada vez mais percebo que as muitas clivagens no âmbito das elites, econômicas e intelectuais, entre políticos, por conta de uma permanente indefinição de quais são as reais forças que jogam o jogo da política, e a principal e maior de todas, entre estes e a maior parte da população do Haiti, impedem a possibilidade de pensar um caminho para o país, a busca de soluções para os problemas energético, ecológico, econômico e social do país. Iniciativas como a criação de um instituto de pesquisas para o desenvolvimento, uma espécie de think tank para o país, esbarram no jogo de vaidades e interesses pessoais dos diversos grupos, e não prosperam porque há uma espécie de sabotagem interna que impede qualquer projeto político-intelectual mais ambicioso de avançar.
E com isso o país perde precioso tempo e seu povo continua na mais absoluta situação de penúria...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Pequenas histórias haitianas...

Catherine e Simone: as duas jovens e o futuro pela frente... Futuro?

Catherine e Simone são duas jovens de Jacmel, são primas. Perto da casa dos vinte anos, ambas já concluíram seus estudos secundários, no entanto, não têm muitas perspectivas sobre o que farão no futuro mais próximo... Tentar uma faculdade seria bom, no entanto, são poucas as vagas na Université d’Etat e uma universidade particular é cara. A escolha por uma faculdade em Port au Prince ainda implicaria em custos maiores, como habitação, alimentação, entre outras coisas. Isso demandaria, talvez, trabalhar enquanto cursam a faculdade. E os empregos simplesmente não existem em Jacmel e são escassos em Port au Prince. Perguntam-me se existem faculdades e empregos no Brasil, se é fácil fazer uma faculdade... Respondo-lhes que talvez... Isso depende... Mas no meu íntimo, depois de tantos anos, começo a crer que as perspectivas no Brasil para um jovem que termina o secundário, que são tão poucas, são assustadoramente maiores do que as daqui... Ambas falam de ir para “Saint Domingue” (como chamam por aqui a República Dominicana) seguindo a trilha de tios e do irmão mais velho, atrás de emprego... Para talvez não voltar...


Wilson é estudante de ciências sociais. Fala seis idiomas, entre eles o português, além do créole... Aliás, não são poucos os poliglotas por aqui. Não raro é possível encontrar gente que fala no mínimo duas línguas além do créole (normalmente o francês e mais uma, quase sempre espanhol ou inglês), é claro, entre os que possuem pelo menos o nível secundário. Wilson está no fim de seu curso. Morador de Martissant, uma das zonas mais pobres e violentas dos arredores de Port au Prince, ele gostaria de fazer um mestrado ou doutorado no exterior, mas antes precisa de dinheiro para terminar o seu curso, por isso se vira em diversos “bicos” como intérprete e tradutor para sobreviver. Sabe que só conseguirá alcançar seu objetivo se tiver uma bolsa de estudos e um bilhete para sair do país... Para sair e talvez não voltar... Seu irmão mais novo é um ativo militante de uma igreja protestante e Wilson torce para que ele siga o caminho missionário para sair do país... E, provavelmente, não voltar...


Pierre é professor de línguas... Formado em Letras e História, leciona em uma pequena escola na localidade de Carrefour Durandisse, na rota entre Leôgane e Jacmel. Pierre fala nada menos que quatro idiomas: créole, francês, inglês e espanhol. Para complementar o baixíssimo salário de professor numa escola comunitária, trabalha à tarde como moto-taxista em Jacmel. Sabe que com sua formação tem poucas perspectivas... Sonha sair do país, para, provavelmente, não voltar...


O “talvez não voltar” sempre aparece como uma possibilidade forte. Afinal, todos falam em voltar. Sobretudo, porque estas idas para o exterior têm íntima relação com o envio de dinheiro para ajudar a família que fica no país. Aliás, esta parece ser boa parte da renda da maior parte das famílias pobres do país. Desde a minha primeira chegada ao Haiti me chamaram atenção duas coisas: o imenso número de lojas de loteria popular, a “borlette”, e as casas de remessa de dinheiro Western Union, Unitransfer, CAM. Algumas destas como a Unitransfer têm tal grau de sofisticação, que oferecem além das remessas de dinheiro, remessas de alimentos, com entrega no local de moradia. A CAM oferece uma chamada internacional gratuita para EUA e Canadá para aqueles que optam por utilizar seus serviços, para confirmar o recebimento do dinheiro enviado.


Ferdinand é técnico de informática, especialista e redes e suporte. Mora já há seis anos no Canadá, em Ottawa. Vem ao país todo ano para três semanas de férias. É um apaixonado conhecedor de nosso futebol. Vem ao país especialmente para matar a saudade da comida, do calor, da amizade e de uma alegria que, segundo, ele parece cada vez mais distante do dia a dia dos haitianos.


Muitos falam de uma permanente degradação da vida e do espaço público. Alguns mais velhos, curiosamente, elogiam a ordem e a organização da vida pública sob o regime ditatorial de Duvalier. Falam até com certo saudosismo das qualidades das condições de vida e das vias públicas, do controle da ocupação das ruas, sobre o fato do país não ter problemas com o abastecimento de energia elétrica. É claro que poucos consideram os aspectos que ensejaram a explosão demográfica que concentrou um quarto da população do país na capital nos últimos vinte anos.


Já entre as classes populares de Port au Prince é muito comum encontrar gente que apóia claramente o presidente deposto Jean Bertrand Aristide. Em Jacmel, não se vê tanta gente que apóie Aristide, mas na capital é interessante notar a força que este ainda exerce tanto sobre seus partidários mais inflamados, quanto para a gente comum das ruas. Consideram que Aristide tinha uma preocupação particular com os problemas das classes populares, e que sua queda beneficiou apenas determinada parte da burguesia nacional. Entre estes, mas, sobretudo, entre uma grande parcela dos intelectuais, Aristide é quase como um conjuro, um espírito maligno, algo a ser extirpado e exorcizado do país. Não há espaço para ponderações, a conversa começa a partir do ponto de que Aristide é um inimigo do país, um ilusionista perverso, que criou, tanto perante a população local, quanto perante uma boa parcela da comunidade internacional, a imagem de um líder popular, de líder progressista.


Estas reações apaixonadas vão desde uma (pelo menos para mim, por enquanto) não comprovada ligação direta entre o ex-presidente e o tráfico internacional de drogas, que teria tido sua vida facilitada durante seu governo, até os reais escândalos que envolvem o enriquecimento pessoal de um ex-padre católico por conta dos processos de privatização das telecomunicações no país. Seu carisma, no entanto, impressiona. E estas reações apaixonadas, de parte a parte mais ainda. Há gente que acuse seus defensores de “mechants”, criminosos, que estariam defendendo o interesse das gangues violentas que explodiram nos bairros pobres em 2004 após a sua partida.


Este processo, aliás, é curioso... Dou-lhes a minha interpretação, que muito pouco tem a ver com uma “verdade dos fatos”, mas que se apóia numa percepção impressionista do processo que antecedeu a saída de Aristide e tudo que ocorreu na sua seqüência. Essa impressão se tornou forte especialmente ao assistir alguns documentários que foram no período dos últimos quatro anos. Essa percepção é corroborada através de conversas com pessoas de extração variada no país, intelectuais, militantes estudantis, “gente comum”, etc.


Os documentários que assisti se dividem exatamente por esta tensão, por este conflito em escolher um lado, e levam-nos a discutir o já tão debatido tema da neutralidade jornalística, da “verdade dos fatos”. O filme de Nicolas Rossier, um suíço radicado no Canadá, por exemplo, é questionador e polêmico para mim, porque foi um dos poucos filmes que se pergunta até onde a queda de Aristide não obedeceu senão a outros interesses que muito pouco tem a ver com a “vontade do povo”. O filme, intitulado “Haïti, un chaos interminable”, foi exibido inicialmente na TV canadense, mas depois reeditado, com cenas acrescentadas, tais como uma entrevista exclusiva com Aristide no exílio, e se encontra na internet com o nome de “Une revolution sans fin – Aristide et l’avenir incertain d’Haïti”.


Outro documentário interessantíssimo é “GNB kont Atilla”, de Arnold Antonin. Este filme mostra a interessante luta dos estudantes contra Aristide nos momentos que antecederam sua queda. Embora seja de tendência radicalmente oposta ao primeiro, é um relato bem interessante sobre toda a movimentação de setores politicamente organizados para resistir a uma suposta tentativa de golpe da parte de Aristide. A idéia de que Aristide pretendesse ficar no poder por mais do que os cinco anos constitucionalmente estipulados foi exatamente o leitmotiv da construção dos argumentos em sua oposição. O filme ilustra, a meu ver, que o medo difuso de uma suposta ditadura comandada por partidários de Aristide foi o motor da organização de uma forte resistência de diversos setores e organizou numa outra ponta resistência armada. De outro lado, o filme mostra também a organização dos estudantes e sua luta contra uma polícia violenta e despreparada e, sobretudo, contra os partidários de Aristide, os “chiméres”, chefes locais de bairros pobres e favelas, que se tornam chefes de gangues criminosas. Este é o tema de outro documentário, “The Ghosts of Cité Soleil”, exibido no Brasil como “As gangues de Cité Soleil”.


Dirigido por Asger Leth e produzido pelo rapper Wyclef Jean (ex-Fugees), o filme é um interessante relato do processo de ascensão das gangues e da queda de Aristide. Acusado por intelectuais daqui de “romantizar as gangues”, o filme mostra, no entanto, um retrato significativo do processo que tirou Aristide do poder. Do meu ponto de vista parece ser claro que Aristide não contando com uma força armada nacional, para garantir seus poderes constitucionais (as forças armadas do país foram dissolvidas por ele em seu primeiro mandato presidencial, logo após a sua volta em 1994, com o fim do golpe de Estado), não podendo confiar na Polícia Nacional Haitiana, ainda sob forte influência dos militares golpistas de 1991 e mesmo dos Tonton Macoutes, do regime de Duvalier, o presidente se vê obrigado a formar uma espécie de “guarda de segurança particular” com seus partidários mais inflamados dos bairros pobres, em especial, de Cité Soleil. Ao armar estas “gangues” dos bairros pobres, Aristide acende o estopim que vai detonar a sua queda, pois será justamente daí que virá a desconfiança sobre um projeto de se manter no poder indefinidamente.


Há ainda um estranho filme, sem créditos, sem diretor ou qualquer referência, intitulado “Aristide the Truth”, que é feito em seqüência. Pude ver apenas uma parte que diz respeito ao golpe de 1991 e à volta de Aristide em 1994, já sob o apoio de Bill Clinton e dos “marines” americanos. Sua seqüência contaria exatamente a história da volta ao poder e da queda em 2004, mas ainda não encontrei-a disponível para venda. O filme tenta ser “imparcial” ao mostrar as ambigüidades da figura de Aristide. Sua oscilação entre um discurso radicalmente contra os EUA, enquanto padre ligado à teologia da libertação, e sua volta ao poder sob os auspícios de Bill Clinton, presidente do país que combatia em seus antigos discursos. O filme também mostra as ligações entre os militares golpistas de 1991 e a famosa “Escola das Américas”, como Raoul Cedras, presidente golpista, e seus assessores foram formados nesta, assim como uma suposta influência de George Bush Pai no processo que ensejou o golpe militar. Aliás, curiosamente, o filme de Nicolas Rossier faz uma associação entre o fato do golpe de 1991 contra Aristide ter se dado no governo de Bush pai, e a queda de 2004, foi sob o governo de Bush filho. É curioso, no entanto, que uma força internacional organizada por EUA e França tenha se antecipado à formação e aprovação do mandato da Minustah pela ONU, visando “garantir o governo provisório e evitar eventuais violações dos direitos humanos no país”.


Como disse todos estes filmes levam a uma única conclusão: a ambigüidade da figura de Jean Bertrand Aristide. Sua força junto à maioria da população impressiona. Mas ao mesmo tempo, falar seu nome é como conjurar um espírito maligno. Seus partidários evitam falar, mas é evidente que eles são uma maioria significativa, ao mesmo tempo, que aqueles que são contra, fora dos círculos da elite local e dos intelectuais, raramente se manifestam, temendo reações inflamadas de seus partidários. E isto nos leva de volta a Cathy, Simone, Wilson, Pierre e Ferndinand...


O que poderia fazer estas pessoas desejarem ficar em seu país?


Não sei. Lembro que numa determinada época, era forte o fluxo migratório de brasileiros para os EUA, e ainda hoje não é nada desprezível. Mas ao mesmo tempo, vejo que ao longo dos últimos 20 anos foram inúmeros concursos públicos, a despeito dos ferozes ataques, as universidades públicas têm, não apenas aumentado o seu número de vagas, mas iniciado um controvertido processo de políticas de inclusão, o atual governo tem investido massivamente na criação de novas universidades públicas e fortalecido a pós-graduação através de bolsas e editais de pesquisa, a inclusão de setores através do consumo e do crédito às classes D e E tem propiciado uma rota de crescimento ao país, o emprego cresce, ainda que timidamente...


Penso nisso e olho para o fato de que, a despeito das várias críticas à classe política do Brasil, isto decorre de um PROJETO DE NAÇÃO. Em que pesem as críticas à má formação de nossos parlamentares, ao despreparo de nossa classe política e a uma suposta corrupção endêmica desta, todos estes problemas são contrapostos exatamente ao alto nível de uma parcela importante da elite parlamentar, à formação de quadros técnicos em alto nível nos últimos 40 anos, a uma burocracia estatal capaz de fazer a máquina pública funcionar (sim, o Estado no Brasil, funciona e muito bem em muitos aspectos) e o aproveitamento destes quadros em setores chave ao desenvolvimento do país, bem como as recentes transformações, tal como a recuperação do rumo do investimento público, sem o qual não é possível haver desenvolvimento algum.


Perguntam-me meus amigos haitianos se tem emprego no Brasil?

Não sei...


Sei que o país deles necessita urgentemente de um projeto capaz de oferecer perspectivas para eles que, mesmo que saiam, tenham como voltar e como trabalhar no país.


Este, aliás, é o problema de Ferdinand, de Pierre e de Wilson quando conseguir de formar... São técnicos formados com bom nível de preparação para serem incluídos no mercado de trabalho, no entanto, a pergunta que ocorre é qual mercado de trabalho? Ferdinand conseguiu sair para o Canadá, país que é constantemente acusado por aqui de “roubar cérebros”. Mas e os outros dois? Quais serão as perspectivas de trabalho para estes aqui no país? E as meninas, que ainda nem chegaram à universidade?


Recentemente, um rapaz me abordou numa festa junina realizada pela Embaixada Brasileira, que reuniu não apenas brasileiros que estão no país, trabalhando na cooperação internacional, na embaixada, soldados da Minustah, mas também os alunos haitianos de língua portuguesa do CEB – Centro de Estudos Brasileiros. Falando um correto português, disse: “Senhor, eu gostaria de saber como eu faço para trabalhar para Minustah. Além de falar português, eu falo espanhol e francês. O senhor pode me apresentar o chefe da Minustah?”. Sem graça, lhe sorri amarelo e disse-lhe que não podia fazer muita coisa por ele, que sou apenas um estudante brasileiro aqui no Haiti. Alguns minutos depois seria apresentado a um dos comandantes brasileiros aqui no país, que me deu um cartão e disse que o procurasse diante de qualquer problema ou necessidade.


Fiquei com o cartão na mão, pensando no rapaz... Claro que não podia mesmo ajudá-lo. Mas fiquei assustado com isso, com essa falta de perspectiva de trabalho e com essa abordagem tão direta e sincera pedindo um emprego no meio de uma festa. Em que pese o inconveniente de tal atitude, ela é no mínimo corajosa, e pensei no que leva alguém a agir de tal maneira. Não achei uma resposta.


Assim como não tenho uma resposta quando pergunto às minhas amigas Catherine e Simone o que elas pretendem fazer no futuro... Elas respondem que não sabem, e perguntam, brincando, se quero levá-las para o Brasil quando eu voltar... Respondo, também brincando, que sim... Elas talvez levem a sério sua pergunta e a minha resposta... Não sei... Tal como Aristide e todas as coisas aqui, mas talvez todas as coisas da vida, tudo é muito ambíguo...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Em busca da pureza perdida?

Des Ermites: Vodu ou Católico? Ou um pouco dos dois?

Ontem, conversava por telefone com um brasileiro que está aqui no Haiti. Fotógrafo, nós havíamos tentado conversar para que eu o levasse à Des Ermites. Infelizmente, uma série de desencontros impediu que nos encontrássemos. Porém, muito gentil, ele perguntou se eu queria conhecer St. Michel du Sud, que segundo ele é um lugar de peregrinação e poderia ser muito interessante para mim. Disse a ele que infelizmente não poderia ir, pois quero estar ao máximo possível em Des Ermites, acompanhando a preparação da festa do santuário, no dia 2 de julho. Comentei que queria ir à Saut d’Eau na festa da Vierge des Miracles em 16 de julho.

Meu interlocutor disse que eu não devia ir neste dia, pois “se quisesse ver as coisas mais ‘puras’ da ‘religião mesmo’, que chegasse antes, por volta do dia 13 de julho”. Disse ainda que “a festa do dia 16 é mais ‘profana’, com gente bebendo cerveja e dançando”. Respondi-lhe que era engraçado o que ele dizia, pois como antropólogo não tinha o hábito de julgar assim as coisas que as pessoas faziam, pois não sou eu quem coloca o selo de “autenticidade” numa manifestação cultural.

Uma vez soube que um jovem antropólogo, numa espécie de auto-elogio ao seu trabalho de pesquisa, criticou o trabalho de outro antropólogo, pesquisador do candomblé, porque em seus livros sobre a música dos terreiros ele fazia as gravações em estúdio, e que do coro destas gravações participaram alguns músicos profissionais, entre eles, um cantor de samba, conhecido na noite do Rio de Janeiro. Disse ainda que suas gravações eram “autênticas” porque haviam sido feitas num terreiro, com os membros deste terreiro. O que não sabia o jovem antropólogo é que o coro que ele criticara era formado por membros de um terreiro ao qual o outro antropólogo é filiado e o cantor conhecido freqüentava a mesma casa de santo, ora como cliente, ora como visitante nas festas públicas.

Isto, de fato, não tem muita importância. O que importa é que certa visão da antropologia se preocupa em buscar uma essência, uma pureza que só existe como idéia nativa, e por isso se apresenta como um problema sociológico, e sendo uma idéia nativa, esta pureza é um “programa de verdade”, por isso se torna um interessante problema a ser pensado. Quando esta “verdade”, esta “pureza” se torna objeto de disputas intelectuais ela é também um problema sociológico, mas não sobre o ponto de vista nativo, na verdade, torna-se um problema de sociologia dos intelectuais, suas disputas, a formação do campo, etc., neste caso, intelectuais tornam-se “nativos”. Não confundir também isto com a questão dos “intelectuais nativos” ou “nativos intelectuais”. Enfim, este jogo de palavras está referido a uma questão: a questão da busca da “pureza” e da “verdade” das coisas.

Meu interlocutor talvez tenha razão. A festa do dia 16 de julho se tornou uma festa “profana”... Isso tira a sua “verdade” como celebração religiosa? Do meu ponto de vista, não. Por quê? Porque na vida real as coisas não se separam de modo distintivo. Separações desta natureza são exercícios de purificação operados a partir de determinados pontos de vista normativos sobre a ordem “verdadeira”, “boa” e “legítima” das coisas.

Olho então para a minha querida Salvador...

A festa do dia 02 de fevereiro, dedicada ao orixá Iemanjá, no bairro do Rio Vermelho é uma festa “de largo”, como dizem os baianos, ou uma festa que ainda guarda um conteúdo religioso? Não sei dizer... Mas vejo as pessoas depositarem suas oferendas no mar, os pequenos barcos saindo com flores e presentes para Iemanjá. Ao mesmo tempo, vejo nas ruas do Rio Vermelho um verdadeiro carnaval, hotéis oferecendo pacotes e camarotes para o dia da festa. Todo mundo enchendo a cara de cerveja e se divertindo. Todo mundo fazendo oferendas, pedidos e pagando promessas feitas à Iemanjá. Sagrado ou profano?

No Rio de Janeiro, no dia 23 de abril, o dia de São Jorge, é feriado. Milhares de pessoas se amontoam em torno do Campo de Santana, ali no final do SAARA, quase na esquina da Avenida Presidente Vargas. São devotos do Santo Guerreiro que vão à sua igreja louvá-lo. Muitos vestidos com roupas vermelhas ou vestidos de branco, chegam ainda na madrugada para aguardar o toque dos clarins dos policiais militares e bombeiros, a queima de fogos e a benção do padre da igreja, as muitas missas, a procissão e o cortejo do santo. Em Madureira, a cavalhada de São Jorge sai da quadra da Escola de Samba Império Serrano e vai até a igreja do santo em Quintino. Em torno de ambas as igrejas, muita festa, pagode, batucada e cerveja. Sagrado ou profano?

Volto para o Haiti. Em Des Ermites olho o modo como as pessoas dançam louvando a santa. Acho curioso, dançam sensualmente, quase de modo “profano”, bebem rum e cerveja, contam piadas e fazem brincadeiras, enquanto transcorre o serviço religioso e diante dos loas manifestados. Sagrado ou profano?

Há alguns anos escrevi um trabalho que intitulei “Profanando o Sagrado?”, que investigava uma pequena loja de artigos religiosos no bairro do Cachambi, Rio de Janeiro, onde sua dona, uma mãe de santo prestava todo tipo de atendimento espiritual na parte do fundo da loja. De um lado, um estabelecimento comercial, voltado à venda de produtos para religião. De outro lado, um verdadeiro templo religioso instalado no interior deste estabelecimento comercial. A minha conclusão era que não havia “profanação” alguma. Havia sim uma naturalização das relações entre uma coisa e outra, que atribuí então à visão de mundo do candomblé e das religiões afro-brasileiras em geral. Mais tarde, já quando defendi a minha dissertação de mestrado, aprofundava a questão afirmando que estas separações são operações de purificação utilizadas muitas vezes pelos agentes em situações de acusação. A vida real torna as coisas extremamente mescladas, complexas e precisamos separá-las para fazê-las inteligíveis.

Talvez Saut d’Eau não seja mais uma “festa religiosa” stricto senso. Mas de outro lado, aprendi que as festas religiosas sempre têm uma faceta profana, que é inseparável de seu lado mais sacralizado. Não desprezaria as observações de meu interlocutor, mas diria que para mim interessa muito mais essa festa mais “misutrada”, onde o “sagrado” parece sufocado pelo “profano”, talvez exatamente porque essa mistura não apresente as coisas “puras” ou “purificadas”, mas porque para mim, suponho, elas parecem mais próximas de como o mundo real se apresenta, sem máscaras ou fantasias.

Não quero dizer que há uma verdade nos fatos a ser descoberta, porque estaria incorrendo no mesmo erro daqueles que falam em “pureza”, “verdade” e outras coisas que no final acabam sendo formas de estabelecer uma visão normativa sobre o mundo. Só não quero também dirigir meu olhar sobre as coisas para fazê-las parecer aquilo que quero enxergar. Quero que as coisas, as sensações, os fatos, entrem pelos meus olhos, ouvidos, pelos meus poros, para que de alguma forma esse exercício quase poético me permita compreender os sentidos que as pessoas atribuem às suas ações.

E com isso, vamos à Saut d’Eau em julho, sem expectativas especiais, apenas para olhar o grande santuário católico/vodu, ver a fé das pessoas misturada com sua alegria, bebedeira e danças. Não quero ver apenas o Apolo do rito bem organizado e preparado, mas ver exatamente o Dionísio presente nestas festas. Porque estes vivem juntos e inseparáveis.

Quero juntar Rimbaud com Max Weber e ver no que dá...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Um festival de incompetência


Se o Lúcio que tá lá, não agüenta ver, imagina nós???
Falando sério? Foi um festival de incompetência dos dois times...


O Brasil de Dunga é um time tão criativo quanto foi o bravo capitão do tetra. E eu nunca tinha visto um time argentino com tanto medo de ganhar do Brasil. Este é o retrato do jogo: um festival de incompetência dos dois lados. Covardia da Argentina versus a falta de brilho do time brasileiro...
O Vanderlei Luxemburgo costuma dizer que o medo de perder tira a coragem de ganhar. Eis o que aconteceu com os dois times, um jogo que empatou porque nenhum dos dois times teve realmente vontade de ganhar.

O técnico da seleção responde: “É preciso ver que do outro lado estava a Argentina”. Que Argentina?

Houve um tempo que a gente morria de medo de jogar com a Argentina. Bastava piscar o olho e... Pimba! Eles metiam um gol... E a gente não conseguia fazer nada... Era ridículo... Lembro daquela bisonha tentativa de voleio do Müller na Copa de 90... A Argentina não jogava nada, mas em um minuto, num vacilo, numa piscadela... Perdíamos...

Os tempos mudaram para os dois times...

Especialmente para a Argentina, que parece não ter forças para nos ganhar. Parece conformada com uma espécie de “escrita”. “Não, não vamos ganhar do Brasil, porque infelizmente não conseguimos...”. Não acreditam? Perdoem-me meus amigos argentinos, mas falaria de três lances neste jogo que a Argentina poderia ter provocado a (tão esperada) demissão do Dunga.

Querem ver?

Messi entra pela esquerda, nas costas de Lúcio, ganha na velocidade e está sozinho diante de Júlio César... Chuta... A bola sai pela lateral!!!

Julio Cruz recebe, aparentemente em impedimento... Sozinho, na cara do Júlio César. Hum! (Fecho olho) Agora f...! O bandeira vai dar (tem que dar!!!)... Não? Ai! Chuta por cima!!! Caraca!!! E não estava impedido? Não! Maicon dava condição lá pela direita.

Finalzinho do jogo, acho que lá pelos 43 minutos... Messi vem com bola pela esquerda, de novo... Hum, isso vai dar merda... Ele bate... Júlio César faz grande defesa, mas dá rebote... Cadê a zaga que não chega? Messi pega de novo e chuta por cima... Fim do jogo.

Começo a acreditar que os argentinos fizeram de sacanagem... Não quiseram ganhar o jogo para não provocar a saída do Dunga que é melhor para eles...

Os otimistas dirão ainda: “a Argentina não nos vence há três anos”. “Nos últimos sete confrontos ganhamos quatro e empatamos dois”. “A Argentina é uma seleção fortíssima”... Sim, não nego que respeito muito a seleção argentina. Sou da geração que ficou 24 anos sem ganhar uma Copa do Mundo, enquanto a Argentina ganhou as suas duas nas quatro que assisti pela TV (1978, 1982, a mais sofrida, 1986 e 1990) até 1994, e a de 1974 não lembro com tanta precisão de detalhes.

Mas na boa?

Esse time não deu nem para assustar... Cadê o Riquelme??? Acho que ele não se recuperou do sacode que tomou no Maracanã... O Messi??? O craque deles, a esperança, o “novo Maradona”, perdeu um gol bisonhamente... Onde está a Argentina do abusado Caniggia, do gigante Batistuta, do raçudo Kempes, do catimbeiro Simeone, do elegante Redondo, do imbatível Fillol, do genial Maradona???

Até o “bonde” do Jorge Valdano era melhor do que o Julio Cruz...

Meus amigos argentinos devem estar revoltados, pois eu falo de um festival de incompetência mútua, e até agora só descasquei o time argentino... Claro! Sou brasileiro!

Sim, sou brasileiro mas não sou cego... Vi o jogo, e vou falar da minha tristeza com a seleção...

Primeiro, porque aqui no Haiti todo mundo me diz assim: “Mwen fanatik Brésil”. Mas também desde aquele jogo contra a Venezuela, me perguntam: “Sa k pase avek Brésil?”. Para esta pergunta (“O que está acontecendo com o Brasil?”), eu tenho a resposta pronta: “Mesye Dunga pa klèr, li pa serie!” (“O Sr. Dunga não é muito ‘claro’, ele não é sério”). Alguns riem e dizem que ele ganhou a Copa América... E em cima da Argentina! Eu digo que é verdade... Mas... Maicon? Daniel Alves? Sei não...

Acho até bom que ele não desfalque o Flamengo e nem quero “puxar a brasa para a sardinha do meu time”, mas francamente, esses dois não jogam juntos a metade do que joga o Léo Moura. Caramba! Basta jogar na Europa para ser craque de seleção?

Ah, tá bom...

Tem mais? Tem de sobra...

Tudo bem que a gente tem que respeitar a Argentina, sim é verdade... Mas escalar QUATRO CABEÇAS DE ÁREA??? Isso parece coisa do Papai Joel...

Alguns ainda dirão, “ah, mas dá um desconto, o Júlio Baptista não é volante e o Anderson muito menos, pode até estar jogando como tal, mas sua posição de origem é de meia armador”. É... Pode ser... Mas respondendo a estes, direi: Sim, de fato, o Anderson não é um volante de origem, mas a origem do Júlio Baptista é jogar como volante, no final, dá tudo no mesmo: um não era volante e virou, o outro era volante e virou meia... No final, o que importa é que os dois jogaram como volantes... Não?

Querem ver?

Por volta dos 20 minutos do primeiro tempo, o Brasil ainda não havia dado sequer um chute em gol e a Argentina já tinha criado uma boa oportunidade numa cabeçada de Julio Cruz facilmente defendida por Júlio César. Olhando para o posicionamento do meio campo do Brasil, este formava uma linha de quatro jogadores atrás do grande círculo, com o Adriano isolado na frente, e o Robinho desaparecido por alguma lateral do campo, voltando para ajudar a defesa...
O meio campo do Brasil só acertava passes laterais, e os zagueiros faziam aqueles “lançamentos” (a famosa “ligação direta”) que caíam nos pés dos zagueiros argentinos. Para piorar, de onde se esperava algum lampejo de talento e algo mais que passes laterais, vinham passes afoitos, errados, muitas faltas e um cartão. Anderson, que supostamente entrou para “dar qualidade ao passe do meio campo”, não acertava lhufas... Júlio Baptista, o outro armador, fazia “o de sempre”, muito vigor, muita vontade, saúde, mas sem brilho...

Mas aos 22 minutos, um alento: Robinho... Ah, Robinho... Sumido, ele resolveu aparecer, dar o ar de sua graça. Numa bela entrada pela direita, dá uma meia lua no zagueiro, e bate em cima de Abondanzieri, a bola espirra e sobra para Júlio Baptista, agora vai! Ele bate em cima de Abondanzieri, de novo!!!

Agora vai... Vai para p...!!!

Numa dessas “ligações diretas” (daí o fato de muita gente achar que isso é uma “jogada ensaiada”, esse chutão dos zagueiros para o atacante brigar com a zaga) alguém “lançou” (desculpe, Gérson Canhotinha!) para o Adriano, impedido, mas este inteligentemente parou, pois o Robinho, vindo de trás, entrava em condições de jogo... O “Rei das Pedaladas” entra livre pela esquerda, dribla o goleiro, caminha para linha de fundo, Abondanzieri tenta detê-lo, não consegue, e quando consegue, agarra sua camisa (pelo que lembro, pênalti não tem “lei da vantagem”), mas Robinho não consegue chutar e nem cruzar... Ai, ai, ai!!! O locutor da TV haitiana diz: “Eternel!!!”.

E só... Isso foi a seleção no primeiro tempo...

Ah, ia esquecendo... Aos 33 minutos, o Anderson se machucou... Ai, cacete!!! Já vi tudo... O Dunga vai ter que tirar um volante e, tão óbvio quanto o futebol que ele jogava, vai colocar outro... Ai... Mas ele me surpreende... Coloca o Diego... Agora tem um lampejo de talento nesse meio de campo... Porém, Diego está numa noite infeliz... Como Anderson, apesar do talento, não consegue acertar nada...

Mas o Dunga como sempre, capaz de surpreender positivamente, como fez com aquele famoso “lançamento” para o Romário no jogo contra Camarões em 1994 (ninguém me tira da cabeça que aquilo foi uma tremenda cagada!), também nos surpreende negativamente...

Ok, o Diego não está bem... Não se achou em campo... Se você fosse o técnico, Zé Renato, o que faria... Eu???

Ah, tá bom... Vamos fazer o seguinte, dá para ganhar esse jogo, né? Dá!

Vamos fazer o seguinte, eu vou dizer para o Júlio recuar, e só “sair na boa”, vou botar o Robinho de quarto homem do meio de campo, e meter o Pato na frente... É bola ou búlica!!! Tudo bem, no Brasil todos somos técnicos e todos temos uma solução mágica para ganhar o jogo...

Mas essa solução não é nada mágica. Ele mesmo tentou e fracassou contra a Venezuela. Perdia o jogo e arriscou tudo... E o Júlio é volante de origem, o Robinho joga às vezes nessa função no Real... Pô, dá para ser...

Tá bom... Mas tirar o Diego e colocar o Daniel Alves???? O que ele quis fazer com isso???

Não! Assim é demais... Os haitianos que viam o jogo comigo, riam do meu desespero...

Mas não dá...

Enfim, não quero ser óbvio e nem reforçar o coro daquilo que todo mundo deve estar repetindo aí no Brasil: porém, FORA DUNGA!!!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Respondendo aos comentários...

Resolvi postar em resposta à gentil atitude de dois meus 12 fiéis leitores em comentar as coisas que escrevo aqui...
Então aí vai...
Primeiro, ao João Marcelo...
Sim, meu caro, é exatamente este o problema que vimos colocando como questão central para a nossa pesquisa aqui no Haiti (a minha, de Federico e demais colegas) como perceber as coisas daqui sem recorrer aos modelos prontos, modelos estes que não são senão "modelos" que não se realizam nem mesmo nos países onde ele foram concebidos. Ora, a "república" francesa, berço da moderna noção de cidadania, nunca viveu tamanha crise de identidade ao se deparar com conflitos como aquele que você expõe. Os instrumentos "clássicos", como você chama, não estão conseguindo dar conta das tensões reais que as relações entre os mundos pós-coloniais e as ex-metrópoles estão impondo. Há uma conta a ser paga, e agora estão aí na porta batendo, cobrando o preço.
Porém, nosotros, daqui da periferia sempre nos acostumamos a lidar com um mundo mais desordenado e caótico do ponto de vista deles. E fazer a ordem desse caos...
O nosso modelo de ação afirmativa, por exemplo, confunde a cabeça de uma parcela significativa dos nossos intelectuais que estão sempre referidos, de forma crítica, ao modelo norte americano. Apontam que houve uma importação direta de um modelo que "cria um conflito onde ele não existe". Não incorporam, por exemplo, uma percepção que uma suposta tendência às "saídas negociadas", à "convergência para o centro", não são nada mais que expressões deste conflito. Só é possível haver negociação quando há interesses em choque. Ninguém negocia sem interesses.
E o mais interessante é perceber que em sociedade como o Haiti, onde supostamente todos são descendentes de ex-escravos, todos são, no limite, negros, há tensões raciais. Pode ser que estejamos falando da "linha de cor" de Dubois, ou ainda, de uma histórica tensão econômica entre negros boçais e mulatos ricos. De qualquer forma, há no seio uma sociedade que é, por assim dizer, negra, tensões raciais. Invocar a mestiçagem não soluciona o problema. E quando passamos para o outro lado da ilha, a República Dominicana, as tensões aumentam ainda mais. Nação e raça se confundem... Infelizmente, queiram ou não certos intelectuais invocar a biologia para dizer: "Ei, vocês estão enganados, raça não existe". Eles talvez precisem dar um passeio pelo mundo para entender melhor a sua própria casa e perceber que muitas vezes são eles mesmos que estão importando modelos políticos/analíticos que não dão conta da realidade. Não sou um empirista radical, mas acho que tem faltado a essa gente andar pelas ruas e se misturar com o seu material de pesquisa. Não adianta dizer que faz pesquisa há 30 anos com relações raciais... Precisam olhar o momento. Pesquisa é isso... É um frame...
Modelos são úteis para pensar, mas não podem dirigir de modo normativo o nosso olhar. Diferente de um microscópio ou um moderno telescópio, a pesquisa social requer que os instrumentos sejam permanentemente ajustados àquilo que estamos vendo... Enfim...
Agora o Leonardo, sobre o Obama.
Em primeiro lugar, foi exatamente isto que possibilitou a comparação entre ele e o Lula de 1989 (diria mesmo que o Lula de 2002 também) a idéia de que sua candidatura quebra um paradigma. Esta é a sua força (como sempre foi a força do PT e de Lula) trazer uma mensagem diferente, de esperança e de mudança. Mas sociedades reais resistem às mudanças, e quebras de paradigma às vezes se apresentam como mudanças demasiadamente radicais para ser incorporadas facilmente.
E isto é que me faz pensar que vou, infelizmente, ganhar a tal aposta.
Nossa experiência frustrada de 1989 nos mostrou que não adianta ser criativo na hora de fazer campanha. Certos golpes são duros demais para se absorver e como eu disse, não será fácil para um americano médio ouvir McCain se referir nos debates ao seu opositor como Mr. Hussein. E não adiantará Obama dizer que seu nome é Barack Obama. Isso só vai pesar contra ele, porque pode ser visto como uma negação de seu nome. Será um complicado jogo de xadrez, muito mais complexo do que convencer um partido (supostamente) progressista a adotar uma candidatura que rompe paradigmas.
E aí vem a questão da Unidade e Esperança... Sim, esse discurso é muito bom para nós. Mas mesmo Bush, no auge da crise do onze de setembro, invocou a nação Una e Indivisível sob os olhos de Deus. E com isso conseguiu fazer passar uma legislação que coloca por terra uma série de tradições ligadas aos direitos individuais nos EUA. E ainda, conseguiu criar uma situação que desrespeita protocolos internacionais relativos aos aeroportos, posto que país algum exige visto para estabelecer uma conexão entre vôos. Somente os EUA... Tudo em nome da unidade da nação e da esperança de manter unido este povo...
Sei não, meu caro, sou muito pessimista, o calo nos ensina a andar de sapato apertado...
Embora não seja partidário da noção de unidade, prefiro a pluralidade e o pluralismo, tenho sempre esperança. Como disse, aposto no Fluminense na final da Libertadores, mas não me incomodaria em perder. Aposto em McCain para a presidência dos EUA, adoraria perder!
O que parece ainda mais interessante é como estas eleições afetam o Haiti e sobretudo a comunidade haitiano-americana. Afeta tanto que meu amigo da aposta vai falar no sábado em um programa de rádio, transmitido para a Flórida (onde se encontra parte substantiva da comunidade haitiana nos EUA), fazendo um manifesto em favor do voto dos haitianos em Obama. Disse a ele que isso não lhe fará ganhar a aposta, pois ele vai pregar para convertidos: imigrantes normalmente votam em candidatos democratas e, mesmo com o grande apoio dos haitianos ao casal Clinton e a pré candidata Hilary, será mais do que natural o voto destes em Obama.
Enfim... Acho que é isso...
Um abraço aos dois amigos e aos outros dez leitores

terça-feira, 10 de junho de 2008

"Antropologices" ou "A maldição"


Cada vez que converso com um hatiano que encontro pelo caminho das minhas pesquisas sobre o vodu, tenho a impressão de que muitos haitianos crêem que seu país sofre de algum tipo de maldição proferida por Deus ou pelos deuses.




Tenho percebido que há por aqui entre os cristãos, católicos, voduissants e protestantes,uma idéia muito forte de um Deus todo poderoso, ciumento e vingador, imagem que entre nós brasileiros parece muito mais recorrente em certas versões do protestantismo, referidas ao Deus do antigo testamento. Fosse tal visão apenas partilhada pelos religiosos, não pareceria estranho, no entanto, ela parece também atravessar de alguma forma a visão de certos intelectuais daqui sobre o seu país.




Enquanto para os religiosos a visão de mundo é atravessada por crenças em divindades sobrenaturais, em poderes superiores e inexplicáveis, pela ação de entidades maléficas exteriores aos homens, ou ainda que são parte de uma natureza pervertida da espécie humana, uma natureza marcada pelo pecado original, entre os intelectuais este pecado original está na Cultura. Cultura autoritária, cultura da violência, cultura da barbárie, cultura "macoute", cultura da "marronage", estão entre muitas associações entre o termo cultura e os males da nação.



Num certo sentido a cultura aparece como um deus ex-machina capaz de resolver e explicar todos os problemas, conferir sentido racional a tudo aquilo que parece fora de ordem ou desarrumado. Em outras palavras, a cosmologia de certa parcela dos intelectuais daqui pode ser enquadrada nos mesmos marcos que as explicações nativas sobre um suposto mal de raiz, uma "natureza" dos haitianos voltada para o mal, apoiadas nas crenças religiosas de católicos, voduissants e protestantes.



Para estes, o mal de raiz viria exatamente do ato de nascença do Haiti: o Sacrifício de Bois Caiman.



Tido como o ato que deflagrou a luta de independência na região norte do país, que uniu os escravos e eclodiu a revolta nas fazendas da região, Bois Caiman é um mito de origem nacional que faz uma associação perfeita entre construção nacional e vodu. Para quem não conhece a história do Haiti, Bois Caiman foi o local onde se realizou uma grande cerimônia vodu, liderada pelo jamaicano Boukman, que organizou os escravos e deu início à luta de independência, onde teria sido sacrificado um porco ou cem porcos às divindades vodu.



Por si só tal ato criaria uma cisão irreconciliável entre o movimento de racionalização, essencial às construção de uma ordem moderna e republicana, e as crenças ancestrais africanas, símbolos por excelência do atraso e da irracionalidade. Como criar uma nação a partir disto? Seria como se algum pintor "espírito de porco" pintasse o Grito do Ipiranga com D. Pedro com as calças na mão, depois de obrar, montado em um burrico. Nada mais realista e menos heróico.



Aliás, é deste modo que se estabelece de maneira perfeita o pecado original dos intelectuais, a ligação perfeita entre cultura haitiana e atraso: não é a razão instrumental que cria uma nação, não é esta que cria o novo mundo pós-colonial no Haiti, não é desta que brota uma nação, mas de seu extremo oposto: é a magia, o encanto e o mito que estão por trás da criação da nova nação. Eis o lugar onde a cultura aparece...



E este ato, Bois Caiman, é quase uma condenação à danação eterna: jamais será possível fazer prevalecer a razão num mundo onde os agentes mágicos se fazem tão presentes e com tamanha força. Não será possível criar uma nação sob os olhos de Deus onde os djab / esprit sejam tão fortes.



Evans-Pritchard escreveu um clássico sobre os Azande, conseguindo demonstrar que através da bruxaria é possível perceber um esquema racional capaz de explicar o funcionamento do mundo e do infortúnio. Fez isso sem recorrer ao esquema evolucionista spenceriano baseado no tripé magia-religião-ciência. Lévi-Strauss foi ainda mais longe ao perceber que os esquemas do "pensamento selvagem" e o pensamento mítico não estão tão distantes assim da "racionalidade" dos sistemas ditos "científicos".



O fato de estarmos fazendo pesquisa no Haiti nos oferece uma visão privilegiada para investigar espaços de pensamento "não purificados", onde oposições binárias não são capazes de explicar com precisão a complexidade da vida social. Seqüências binárias do tipo atraso/modernidade, racional/irracional, rural/urbano não são suficientes para entender o que se passa por aqui. É um mundo de milhões de telefones celulares pelos quais loup garrou e djab diversos se comunicam o tempo todo. As oposições rígidas não servem senão como um exercício heurístico permanentemente descartável. Usamos uma oposição binária no primeiro parágrafo, para descartá-la no segundo, sobretudo quando somos colocados diante de situações sociais reais, empíricas.



Aliás, somente estas situações sociais, as "cenas sociais" que Florence Weber propõe, interações momentâneas de caráter durável ou não, é que nos permitem perceber o quanto e como as tensões se evidenciam entre os modelos analíticos e o mundo que observamos. São exatamente as relações sociais e os sentidos atribuídos às ações pelos agente que talvez nos permitem compreender o que se passa por aqui no Haiti e talvez no resto do mundo.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Apostas

Há certos tipos de aposta que adoraríamos perder...
Por exemplo, se hoje eu tivesse que apostar na equipe que seria campeã da Taça Libertadores, apostaria de olhos fechados no Fluminense, e sei que fatalmente iria ganhar. Eis uma aposta que gostaria de perder...

Recentemente fiz uma aposta com um amigo haitiano entusiasta da candidatura de Barack Obama à presidência dos EUA. Seu entusiasmo é, sobretudo, com uma crença de que os EUA estariam mudando e que Obama representa esta mudança de mentalidade. Não é com menos entusiasmo que vejo esta candidatura como um sinal de uma importante mudança no mundo, a mais rica e poderosa nação, cuja história sempre foi marcada por uma radical clivagem racial, teria em sua presidência um “homem de cor”. Mas também olho com um pouco mais de realismo desencantado: não, os EUA ainda não estão preparados para ter um negro como seu presidente.

Então, fizemos uma aposta: Obama não derrotará McCain. Vamos jantar num caro restaurante chinês de Pétion Ville, se Obama se tornar presidente dos EUA, eu pagarei o jantar. Se ele perder, meu amigo pagará o jantar. Eis uma aposta que adoraria perder...
As eleições nos EUA sempre têm grande importância aqui no Haiti.

Os próprios movimentos da política nacional do Haiti estiveram nos últimos quinze anos muito relacionados com a alternância entre republicanos e democratas no poder nos EUA. O golpe de 1991 contra Aristide, segundo alguns relatos daqui, estaria intimamente ligado às ações da CIA, posto que um dos líderes deste golpe, que viria a se tornar presidente com a derrubada de Aristide, Raoul Cedras, foi aluno da malsinada “Escola das Américas”. Estes mesmos relatos afirmam que o golpe dado teria apoio do então presidente George Bush “Pai”.

De outro lado, a volta de Aristide ao poder, segundo o jornalista Jean Dominique, assassinado em 2000, foi um coup de télephone (literalmente, “golpe de telefone”), dado por Bill Clinton no governo Cedras. Dominique afirmava que os EUA derrubaram Baby Doc da mesma forma, e num programa de TV nos EUA, disse que se tratava do Presidente dos EUA tomar uma atitude contra o governo golpista e restituir Aristide ao seu lugar de presidente eleito. Aristide voltou ao país protegido pelos marines americanos e retomou seu posto de presidente.

Alguns críticos mais radicais e adeptos de teorias conspiratórias fazem uma associação curiosa entre a queda de Aristide em 2004 e o fato do presidente dos EUA ser George Bush, “Filho”. O fato é que a comunidade haitiana nos EUA apóia intensamente os democratas, pois crê que a política destes para o Haiti é mais positiva (e propositiva) que o “Big Stick” republicano. O curioso é que algumas informações que tive por aqui diziam que esta comunidade apoiava a candidatura do casal Clinton e, reforçando a crítica comum à Obama, que este não seria “suficientemente negro”. Outros afirmam que este apoio viria de partidários de Aristide, que são muitos na Flórida, principalmente, que conta com a simpatia e o apoio do casal Clinton.

O cenário das eleições nos EUA tem grande importância no Haiti por variadas razões. Boa parte da comunidade haitiana nos EUA sustenta a economia do país através de remessas de dinheiro e alimentos para os parentes daqui. Uma das principais alternativas para melhoria de vida por aqui é a ida para os EUA, para desta forma remeter dinheiro para os parentes daqui. A falta de perspectivas dos jovens e jovens adultos faz dos EUA um eldorado e o sonho do Green Card povoa até as demandas aos sacerdotes vodu, que têm na diáspora haitiana uma parcela significativa de sua clientela.

Neste momento, Obama já derrotou Hilary Clinton e está frente a frente com McCain para disputar a presidência do país. Meu amigo diz para mim que já venceu a metade da aposta, e eu lhe respondo que não, pois sempre lhe dissera que Obama seria capaz de derrotar Hilary. Digo sempre que o difícil será convencer algum morador do Kansas, ou do Alabama que o presidente dos EUA se chama Barack Hussein Obama... Ou ouvir McCain nos debates se referir à Obama como Mr. Hussein...

Em 1989 eu militava num partido que tinha como sonho levar um operário fabril à presidência do Brasil. Em 2002, com alguma desilusão e muito realismo chegamos com Lula ao poder, já não eram mais o mesmo projeto e o mesmo operário que chegava ao poder. Mas havíamos vencido. Vejo o caminho de Obama como este mesmo sonho. Será que ele se realiza tão rápido ou será ainda necessária uma longa espera, muitas desilusões e mudanças para chegar lá?

Abraço