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sábado, 25 de abril de 2009

O Pinhão Manso e o Biodiesel - A cura dos males do Haiti?

Estive esta semana na Biblioteca Nacional e na Biblioteca da Instituição Religiosa Saint Louis Gonzague. Ambas são sempre citadas em bibliografias de obras sobre o vodu como grandes repositórios da literatura etnológica do país. Ja estivera antes na biblioteca do Bureau de Ethnologie, fundado pelo escritor e etnólogo Jacques Roumain no início dos anos 40, que infelizmente se encontra em estado um tanto precário, apesar do bom conjunto de obras disponíveis.

Entre os livros encontrados, achei "Mythologie Vodou (Rite Arada)" de Milo Marcelin (1949), onde há um excelente coleta de dados sobre os lôas do Rito Rada. Segundo a literatura, o vodu se divide em duas linhas pricipais, o rito Rada (ou Arada), dos
lwa ginnen (lôas guiné), os ancestrais africanos e o rito Petro, que são os lwas créole (lôas créole), os lôas nativos do Haiti, as divindades originárias daqui. Num dos capítulos, Marcelin fala de Ayizan Véléquete, esposa de Atibon Legba, protetora e deusa das águas doces, também dos mercados, dos lugares públicos, portas e entradas diversas. Ayizan Velequeté é uma das divindades mais velhas, e já fora objeto de um culto particular, distinto dos demais lôas. Segundo Marcelin, antes de bay manje lwa yo ("dar comida aos loas"), a comida deveria ser separada em duas metades iguais, uma das metades era destinada a Ayizan, a outra metade dividida entre os demais lôas. Afirma ainda que cada lôa tem um "reposoir", uma árvore que serve de residência para o lôa ou divindade. A árvore destinada a Ayizan é o médicinier béni ou gwo metsyien (Jatropha curcas L.). Traduzindo, a árvore destinada a Ayizan é o bem conhecido dos defensores dos biocombustíveis "Pinhão Manso".

Esta semana num dos dois maiores jornais do país
Le Nouvelliste lançou uma matéria sobre a Jatropha, que como todas as questões relacionadas aos biocombustíveis se encontra cercada de polêmicas, sobretudo por que os defensores do biodiesel não cansam de apontar as vantagens do desenvolvimento destas tecnologias . Polêmicas a parte, isto me levou a uma conversa que tive ontem com um velho amigo sobre as saídas da crise haitiana. Falávamos das eleições e do beco sem saída em que o país parece estar metido. Este amigo acredita que é melhor mesmo que haja eleições, mesmo que ruins. Retorqui dizendo que eleições desta ordem servem apenas para deslegitimar o sistema representativo e denunciam a sua farsa, pois cada vez menos gente confia nos políticos e nas eleições.

Este não é um fenômeno particular do Haiti, mas parece demonstrar a gravidade do problemas dos rumos da democracia representativa. Aliás, a democracia virou, pelo menos em casos como o haitiano, mera representação, no sentido de
encenação ou de figurar como símbolo de algo. Neste sentido, a democracia ocidental cada vez mais, ao invés de se fortalecer em processos como o iraquiano, afegão ou haitiano, vai perdendo legimitidade junto às populações locais e cedendo espaço para "outra coisa". Qual seria essa "outra coisa"? Meu amigo perguntou-me a resposta deste dilema, e qual seria a outra saída. Ou apenas lhe respondi que se soubesse, teria achado a chave da história da humanidade. O certo é que o "fim da história" sonhado pelos liberais dos anos 90 ou pelos comunistas de todas as eras ainda está bem longe, mas é certo também que em tempos recentes a democracia liberal pode estar começando a sofrer os seus mais fortes golpes: a primeira eleição de Bush nos EUA já afetara gravemente a credibilidade do sistema, e estas eleições no Haiti são outra prova. Como disse também ao meu amigo, se dissesse algo tão bombástico assim, ou eu seria um profeta iluminado, ou seria um grande mentiroso.

Entramos então numa discussão sobre o papel da comunidade internacional no Haiti e os projetos para o desenvolvimento do país. Parece claro que a saída consiste em garantir às comunas do interior do país a possibilidade de desenvolvimento, possibilitar o renascimento da vida camponesa no país. Somente, através da recuperação agrícola, da criação de oportunidades no campo para as pessoas é que será possível iniciar uma recuperação econômica do Haiti. O país é uma das maiores vítimas da crise alimentar. O declínio da produção rural decorre, sobretudo, da falta de uma política agrícola e da falta de competitividade da produção nacional contra os produtos alimentares importados. A crise ambiental agrava os efeitos do esvaziamento do campo e do inchaço das cidades: as pessoas saem das pequenas comunas do interior para as capitais departamentais e destas para Port au Prince. Depois de Port au Prince, como debatia com o amigo, a próxima saída era o aeroporto. O amigo então insistiu no fato de que, uma das formas de tirar dinheiro dos EUA seria exatamente o controle da imigração, através deste desenvolvimento local. Eu poderia até concordar, porém, não há tantos boat people assim... E embora altos, os investimentos estrangeiros no país, sobretudo aqueles vindos EUA, estes parecem não chegar ao interior do país.

A constituição do país prevê uma descentralização econômica e administrativa. Esta, no entanto, está amarrada em interesses não muito claros dos sucessivos governos haitianos, que não possuem políticas para o desenvolvimento das outras regiões do país e concentram a aplicação de recursos na capital nacional. Nem mesmo as capitais departamentais recebem grandes investimentos.

Entre as supostas virtudes da Jatropha, o nosso "pinhão manso", estaria o fato dele ser uma planta nativa, bem adaptada às condições ambientais desfavoráveis. Outras vantagens seriam as inúmeras possibilidades de seu cultivo em consórcio com outras culturas, algumas delas de produtos alimentares de alto valor agregado (açaí, palmitos diversos, gado, etc.). Seu sugestivo nome médecinier e suas características de erva medicinal, utilizada em diversos fins, no tratamento de feridas e inflamações, como repelente natural de insetos, antiséptico, nos fazem perguntar se, de fato, ela não seria uma cura para os males do país...

A preocupação dos críticos dos biocombustíveis é a criação dos grandes "desertos verdes", quando a monocultura pode não apenas expulsar as outras culturas, como reduzir a produção de alimentos e facilitar a concentração de terras, o que sem dúvida agravaria ainda mais os muitos problemas do campo no Haiti. De outro lado, há além da produção do biocombustível, os resíduos quando aplicados sobre biodigestores produzem gás, que pode ser utilizado para a geração de energia elétrica, um dos grande problemas do país. Panacéia?

A sabedoria dos médsin fèyi (médicos das folhas) e dos herdeiros dos conhecimentos tradicionais do vodu que cultuam este arbusto como um repositório de Ayizan, além dos grandes Mapous, quase extintos, que são a morada de Loco Atissou, provocam uma reflexão sobre o lugar das plantas e vegetais nas religiões tradicionais. O vodu é uma religião que cultua a natureza, e cada vegetal, cada mata é uma habitasyon de uma divindade, de um lôa, que deve ser preservado. Tal e qual o Brasil, onde as religiões tradicionais, afro-brasileiras e indígenas estão na vanguarda da luta pela preservação, aqui no Haiti o vodu pode ser o lugar deste despertar para a preservação dos mapous, da busca de alternativas para um desenvolvimento sustentável do Haiti.

Abraços a todos,

Ansioso pela grande final, a terceira...


sexta-feira, 14 de março de 2008

Os Haitianos e o Futebol




Para o João Marcelo, todos os Ferrabrazes e todas minhas amigas que entendem e acompanham futebol
Já é pública e notória a paixão dos haitianos pelo futebol brasileiro. As incríveis cenas que foram vistas naquela famosa partida entre a seleção local e o Brasil, além do documentário que fala do jogo, comentei algumas vezes sobre o assunto. Mas o haitiano não é um apaixonado exclusivamente pelo futebol brasileiro. Ele é apaixonado por futebol de uma maneira geral.

Outro dia, numa quarta-feira, andando por Jacmel, caminhando desde a minha casa até o centro e de volta para a casa, depois de passar no pequeno mercado & farmácia St. Cyr, que fica no começo da Av. Barranquilla, a rota principal da cidade, e já no mercado havia reparado isto: todos estavam diante da televisão, assistindo ao jogo da Liga dos Campeões da UEFA entre Milan e um outro time. Espantei-me mais vi a reclamação da senhora gorda, dona do mercado, quando Kaká recebeu um cartão amarelo por um carrinho. Seguindo pela Barraquilla, via em cada canto (onde há energia elétrica de inversor ou gerador), especialmente nos pequenos comércios, barbearias, lojinhas e bares uma TV ligada no jogo de futebol e olhares atentos, fixos, acompanhando atentamente cada lance. Homens e mulheres assistindo juntos, naquela tarde, um jogo de futebol, com um interesse que só vi no Brasil em jogos de Copa do Mundo.

Meu amigo João costuma de dizer que Copa do Mundo é coisa de amador. Por isso que mulher gosta. É aquela farra. Ainda mais em jogo do Brasil. Mas em Copa do Mundo tem mulher que acompanha mesmo. Mas depois passa. Não digo isso falando de todas as mulheres e nem estou sendo machista. Tenho amigas que conhecem e gostam de futebol, só acho que não entendem muito porque quando não são Flamengo(a maioria inteligente), torcem por Botafogo (Bel Pacheco), Fluminense (Helena Tinoco) e algumas outras que acompanham seus times. Mas elas são minoria. Que o diga a minha irmã Ana, que em minha homenagem tem acompanhado os jogos do Flamengo na minha ausência.

Mas aqui (talvez elas sejam também minoria) as mulheres assistem jogos da UEFA Champions League. Sabe lá o que é isso? Isso é coisa de profissional do ramo. Tem muito marmanjo apaixonado por futebol que não tem paciência de ver Fenerbahce x Bayer Leverkussen, e os que têm, fazem isso por causa do Zico.

O haitiano parece mesmo ser apaixonado por futebol.

Nos últimos dois dias aqui em Port au Prince experimentei uma sensação nova em relação ao futebol. Assumi minha nacionalidade haitiana e torci pela nossa seleção em dois jogos pelo Pré-Olímpico da Concacaf. Mas o mais divertido e gostoso foi ver Mme. Evance e Rony, os empregados de Laeneck, torcendo animadamente pela seleção de seu país.

A narração do jogo em créole pelo locutor da TV é simplesmente hilária, pois parece rádio. Parece uma narração de rádio com as imagens. John Sutcliffe é o narrador da ESPN em créole. Ele lembra um pouco o Sílvio Luís, pelo bom humor e as constantes intervenções para além do jogo, com um jeito de narrar meio torcedor (não esqueço o famoso: “Queimou o filme do Brasil em Atlanta”, do Sílvio). A correria da voz lembra o José Carlos Araújo dos tempos da Nacional, o atual Luís Penido da Tupi, e o velho Doalcei Camargo, da antiga Tupi. Tem ainda um pouco do tom de epopéia dos saudosos Waldir Amaral e Jorge Curi.

A animação dos dois torcedores com cada lance, alguns deles nem tão perigosos assim, é ainda mais empolgante. Parece carregar uma certa ingenuidade. Pois eles reconhecem a fragilidade de sua seleção, diante de grandes times como Brasil, França, a atual campeã do mundo Itália, a Argentina. Mas este reconhecimento não diminui a paixão. Parecem torcedores do América do Rio, apaixonados e sempre esperançosos de um despertar que não acontece.

Mas hoje, sexta-feira, parece que o Haiti despertou! (Será que o Mequinha vai despertar e escapar do rebaixamento?)

O jogo de quarta-feira entre Haiti e Guatemala foi curioso. No primeiro tempo, o Haiti parecia desorganizado, um bando em campo, dando chutões, fazendo ligação direta entre defesa e ataque. A seleção guatemalteca, por seu turno, parecia mais organizada e consciente. Errava menos passes e, apesar de não ameaçar o gol haitiano, tinha um controle mais efetivo do jogo. E por esta razão, por volta dos 30 minutos do primeiro tempo, chegou a seu gol numa jogada de contra-ataque. O bom atacante da equipe, camisa onze, entrou pelo lado direito da área e tocou na saída do goleiro haitiano.

Se a equipe haitiana parecia desorganizada antes do gol, mostrou realmente que estava totalmente perdida em campo depois dele. O técnico sacou, antes do fim do primeiro tempo, dois jogadores do time, e o único que parecia saber minimamente o que fazer com a bola nos pés era o camisa 9 haitiano, Leonel Saint Preux. Parecia que a Guatemala ia levar fácil o jogo. Desanimei. Fim do primeiro tempo. Mas Mme. Evnace e Rony pareciam mesmo animados, esperançosos e ansiosos pelo segundo tempo. Durante o intervalo não entram as imagens geradas pela ESPN, só as imagens locais, e então, durante o intervalo, há um show, mas bem diferente daquele que a TV Globo mete nos intervalos com os chatos Sérgio Noronha, Falcão e Zé Roberto Right e o bobalhão do Arnaldo César Coelho. Aqui, as engraçadas propagandas da TV haitiana e videoclipes de bandas locais.

O segundo tempo reservava surpresas. E a melhor delas foi ver um time haitiano mais organizado, com boas atuações de Peterson Joseph, James Marcelin e do camisa 10 Jean Sony Alcenat. O Haiti começa aos poucos apertar, pressionar, tocar melhor a bola e errar menos passes. O gol parece questão de tempo, porém, o tempo vai passando e vai ficando cada vez mais difícil de sair um gol de empate. Aos 42 do segundo tempo, uma boa jogada pela esquerda, o cruzamento na área passa por todo mundo e encontra livre na pequena área Leccinel Jean-François. Ele domina e bate em cima do goleiro, a bola ainda volta para ele, para uma segunda chance, impossível perder agora. Parecia o empate, mas providencialmente aparece um zagueiro guatemalteco, a bola sobe e Leccinel tenta ainda mais uma vez, uma puxeta, e fura, a bola sobra para outro zagueiro que tenta sair jogando e sofre falta de Leccinel. Depois, foi só a Guatemala prender um pouco a bola no ataque e fim de jogo. A seleção haitiana sai derrotada.

Com a derrota para a Guatemala, a coisa se complicava para o Haiti, pois o Canadá arrancara um empate contra o México, supostamente a principal força do grupo. O Canadá, com o empate, assumia ares de favorito, posto que empatou e jogou bem contra o México. Já a Guatemala, espera tranqüila o jogo duro com o México, pois mesmo em caso de derrota, decidiria sua sorte, por conta própria contra o Canadá.

Torcendo pelo Haiti lembrei um pouco de como era torcer pela seleção japonesa do Zico. Difícil, pois a gente sempre achava que ia dar certo dessa vez, mas não dava. Apesar de tudo, o Galo saiu cacifado desta história e está subindo de prestígio, já que conseguiu colocar o seu Fenerbahce nas quartas de final da UEFA Champions League. Seria o máximo o Galo conseguir o título com uma equipe turca na Europa...

Pouco antes do jogo, disse a Rony que ganhar do Canadá para o Haiti, era uma missão difícil, mas ganhar do México, é a missão impossível. Mas para o povo da terra de Toussaint L’Ouverture e Jean Jacques Dessalines parece não haver coisa impossível! Disse também brincando que eu era um profeta, o profeta do futebol, e que o Haitia venceria o jogo.
E começa o jogo. O time canadense tem um centroavante Ornoch, enjoado, daquele tipo que vai em todas, divide todas, cava o tempo todo. Mas desta vez, o time hatiano parece ter entrado em campo mais organizado, tocando a bola e ameaçando mais o Canadá. Embora erre muitos passes e perca ingenuamente algumas jogadas, parece que o Haiti tem mais interesse em vencer a partida que os canadenses. Os gritos e a animação de Mme. Evance e Rony são entusiasmantes. Parece que hoje vai. O Haiti vai vencer!
Mas de repente, para meu espanto, mesmo jogando melhor que o Canadá, que sempre ameaça com Ornoch, aos 17 do primeiro tempo, Rosenlund marca o gol do Canadá. Uma ducha fria no entusiasmo haitiano. E no nosso entusiasmo, afinal fica difícil torcer assim...
O primeiro tempo segue com a equipe hatiana pressionando, mas os chutes saem tortos e sem direção. Não parece que o Haiti vai ganhar. Mas repito para meus amigos haitianos: "Eu sou um profeta, e estou dizendo que o Haiti vai ganhar".
Fim do primeiro tempo, intervalo para as simpáticas propagandas haitianas e um clipe de hip hop e outro de um cara cantando aquelas salsas melosas, tipo Rick Martin... Que venha o jogo e a narração animada de Sutcliffe...
Começa o segundo tempo e o Haiti, que já vinha melhor no primeiro tempo, passa a tomar conta do jogo. Alguns contra ataques do Canadá assustam, e numa entrada pela direita da área, junto com o zagueiro Parnel Guernier, Ornoch sofre um penalti (visivelmente o zagueiro hatiano vem segurando ele pela camisa) ignorado pelo árbitro. Comecei a pensar, como diria Sílvio Luís, "a barba da seleção haitiana está crescendo"...
As chances porém começam a ficar mais claras para o Haiti. E mais uma vez, Leonel Saint-Preux joga bem, ao lado de Sony Alcenat. Marcelin, menos brilhante que na partida anterior, parece sólido do meio campo. Bidrece Azor aparece em boas subidas pela esquerda. Haiti mon peyi!!!!
Vinte e sete minutos do segundo tempo... Ali eu vi porque os haitianos são tão apaixonados pelo nosso futebol, e como eles sonhar em emular este futebol que eles acreditam ser de sonhos...
Uma bela tabela pelo lado esquerdo da área, Leonel toca para Sony, Sony devolve dentro da área e Leonel, de primeira, toca para Alain Gustave na entrada da área. Sem deixar a bola cair ele bate de primeira, seco no canto direito do goleiro canadense Wagennar. Golaço! Uma jogada tipicamente "brasileira", a tabela e o chute seco de Gustave, à La Kaká... Lindo gol mesmo... Aí eu me empolguei de vez. E o time haitiano também, sem firula, com muita objetividade e algum talento, eles passam a buscar o gol da vitória, se expondo mais.
O técnico canadense mexe no time, põe um atacante camisa 9, Lombardo. Outro cara enjoado, parece aqueles atacantes argentinos, estilo Palermo, que estão ali, trombando, brigando e, de repente, deixam o seu. Pelo lado esquerdo do time canadense, um lateral, um neguinho enjoado à vera, camisa 12, Diaz Kambere. O jogo fica mais franco, mais aberto e mais animado. Não, não mais animado, pois já estava definitivamente seduzido pela seleção haitiana e não podia mais assistir com aquela neutralidade olímpica que a gente assiste um jogo de Copa do Mundo entre Áustria e Argélia... Não, naquele momento eu meu tornara totalmente haitiano!!!
Num lance na entrada da grande área, numa bola alçada, o goleiro canadense sai mal, rebate e a bola cai nos pés de Judelin Aveska. Ele toca por cima, com um pouco de força... Fora!!!! Ai que este gol não sai. Logo depois, num contra ataque pela direita, Ornoch toca bem para Hemming que toca rápido. Lombardo divide com o zagueiro, ganha e chuta... Mal! Grassedye! Bola por cima...
Aí, a magia da seleção haitiana, que havia me encantado, me conquistou de vez... São 39 do segundo tempo. Depois daquele lance por cima, os haitianos tentaram ainda umas duas vezes por cobertura, sem resultado... Mas veio o lance de magia. Leonel Saint-Preux, que já havia me chamado a atenção na primeira partida, e que vinha jogando bem novamente, pára, da intermediária, olha para o gol e vê Wagennar adiantado. Olhando o lance, voltei no tempo, ao jogo Brasil e Inglaterra na Copa de 2002, cobrança de falta da internediária. Ele toca lindamente por cima e a bola vai morrer mansamente no gol canadense. Eu grito: $#@&%$ GOLAÇO!!!!!
Um gol de sonho, "como aquele do Ronaldinho Gaúcho na Copa de 2002", digo eu para Rony, e como se me ouvisse, Sutcliffe na TV repete as mesmas palavras.
Aí começa o meu desespero... Faltam cinco minutos, mais os descontos... Cadê o Felipão para jogar umas bolas dentro do campo? Cadê aquela manha do Parreira ou do Vanderlei para meter um cara no time e ganhar um tempinho com a substituição??? Cadê aquela esperteza de um Cuca ou de um Papai Joel para fazer o time prender a bola na bandeirinha de corner e ganhar um tempo???? Não, o Haiti é puro entusiasmo! Sutcliffe, Rony e Mme. Evance falam em terceiro gol... E eu, digo: cautela e, misturando português com francês e créole, com alguns palavrões que meus amigos daqui não entendem, "Il faut qui retê la bola... Li beswan retê la pelota"...
Quatro minutos de descontos parecem uma eternidade. Saint Preux carrega a bola pelo lado direito, grito: Vai, fait comme Denílson, retê la pelota, prenn le balon... Diabo, como falo isso em francês ou créole????
A defesa canadense toma a bola e dá um chutão para a frente... Soberano da defesa o goleiro haitiano Placide rebate de soco, o juiz está no meio campo. Vai acabar, c'est fini, allez juiz, allez... Acaba com esse troço.
Fim! Vitória haitiana! Alívio e a descoberta de uma nova paixão que quero curtir muito: o futebol haitiano...
Abraços a todos

quinta-feira, 13 de março de 2008




O corpo, a morte leva
A voz some na brisa
A dor sobe para as trevas
O nome, a obra imortaliza
Súplica, João Nogueira e Paulo César Pinheiro



Para meu amigo Guilherme Sá, que pediu que eu falasse do vodu...



Uma das coisas que mais faço desde que fui morar em Jacmel é caminhar. Minha casa fica a cerca de 3 km do centro da vila de Jacmel, logo, qualquer coisa que tenho que fazer, com exceção de comer os deliciosos akra malanga e beber a minha boa Prestige, que faço no Ballade, o bar restaurante na esquina de minha casa, sou obrigado a andar essa distância para fazê-la.


Como tenho dito, há um problema crônico no transporte público no Haiti. Não há ônibus formalmente instituídos, tal como conhecemo-los, os táxis idem e, em Jacmel, a grande força do transporte público são os moto-táxis. Já vi algumas vezes um dois (talvez o mesmo carro?) circulando com o sinal de “táxi” sobre ele, pelas ruas do centro de Jacmel. Mas ainda não faço a mínima idéia de como ele funciona. E como tenho, ou pelo menos tinha, pavor de andar de motocicleta, o que mais faço é andar. As caminhonetes passam sempre lotadas, mas já utilizei algumas vezes. O bom é conseguir subir nelas no centro e de lá seguir “à kote Ballade là” pelo preço de 2 dólares haitianos (10 gourdes). Porém, o meio de transporte mais rápido é mesmo a motocicleta.


Sempre tive pânico de motocicleta... Desde as queimaduras na parte interior da batata da perna que as meninas assanhadas da minha adolescência tinham até os tombos terríveis que alguns amigos tomaram, o pior deles o que meu amigaço Beto tomou em 1992, quando passou 6 meses com os dois braços e uma perna inteira engessados, ou do Marcelo que praticamente perdeu a sola do pé, e ainda meu primo Leandro, que fraturou as duas pernas e viu seu amigo, que ia de carona, morrer num acidente com moto... Enfim, motocicletas sempre representaram para mim um perigo permanente... Mas desde que cheguei à Jacmel, tenho sido sistematicamente obrigado a abandonar meu medo e montar em motocicletas e... “kote Ballade là, souplè”.


Enfim, em Jacmel (estou no momento em PaP) faço diariamente longas caminhadas. Especialmente quando acordo (muito) cedo “pou pwomennen nan la campagne”. Saio para fazer algumas caminhadas pelas estradinhas de terra batida que seguem da rua onde moro em direção ao mar. Passeios que rendem belas fotos. Em Jacmel os dias são realmente longos, pois desperto em torno das 6 horas da manhã, quando já há alguma luz. Não perdi, ainda, o hábito de dormir tarde. Então, às vezes vou dormir às 23 horas, ou às vezes mais tarde. Como já disse, não tenho nem internet em casa e nem luz o tempo todo. Normalmente a luz só chega por volta das 18 horas ou pouco antes de escurecer. Então, trabalho enquanto a bateria do laptop agüenta, e depois saio para fazer esses passeios.


Desde a minha primeira viagem ao Haiti e à Jacmel, em especial, comentei que achei impressionante a quantidade de pequenos túmulos ou conjuntos de túmulos próximos às casas, pelos caminhos que passei. Na estrada de PaP à Jacmel, principalmente a partir de Leógane, são inúmeras casas, os “lakou”, conjuntos de casas de famílias ou parentes próximos, onde é possível ver de tão perto os túmulos e as pessoas sentadas fazendo suas coisas normalmente, como se aquilo fosse mais um objeto da casa, um móvel, uma árvore ou, quem sabe, uma pessoa.Vi algumas vezes alguns deles com coroas de flores, vasos e velas acesas, mas sempre cercados de gente e próximos às casas.


Um dos passeios a pé que fiz foi até Cyvadier, uma localidade a cerca de 4 km da minha casa. Lá existe um hotel que tem o mesmo nome da localidade, com uma boa praia e o dono/administrador é um jovem extremamente simpático, onde é possível beber um suco ou uma cerveja gelada. Caminhei bastante neste dia, pois fui também por outras direções, onde poderia ver e fotografar o mar, antes de retomar a Route Barranquilla.


Neste dia o meu espanto com essa proximidade entre os túmulos dos mortos e as pessoas vivas chegou ao seu limite mais extremo, quando vi um grupo de crianças brincando tranqüilas sobre um túmulo com flores ainda frescas. Comecei a pensar nas idéias de poluição que são ensinadas para nós entre estas duas dimensões. Os mundos dos vivos e dos mortos em nossa cultura são radicalmente separados. Mesmo as religiões tratam essa separação de uma maneira muito precisa, estabelecendo limites, por vezes rigorosos entre estas dimensões.


Os restos dos mortos têm um caráter “poluidor” muitas vezes. A presença de um morto é um sinal de perturbação, seja ela visível ou invisível àqueles que crêem. O direito de enterrar os mortos, por exemplo, já foi objeto de conflito no Brasil Colônia com a criação do primeiro cemitério público em Salvador, contra os interesses das ordens religiosas e dos próprios fiéis que acreditavam ter o direito de enterrar os seus mortos nas paróquias e freguesias onde eles viviam, e não num terreno pré-determinado pelas leis públicas (o historiador João José Reis tem um estudo publicado sobre o tema). Mas de qualquer forma, neste caso ao menos, não se tratava de enterrar os seus mortos na própria casa, mas no cemitério da paróquia. Não é pouco significativa essa separação entre os mundos de vivos e mortos no campo das religiões.


Os ritos das mais diversas tradições religiosas estabelecem uma separação física entre estas duas dimensões de uma maneira radical. Mesmo os egípcios, que acreditavam numa existência post-mortem tão importante quanto àquela vivida, a ponto de terem desenvolvido diversas técnicas de conservação do corpo físico dos mortos e nos casos de reis e pessoas ricas, muitas vezes sepultarem junto com o morto suas riquezas materiais e as pessoas mais próximas de seu convívio. Enfim, não vou me alongar muito para dizer o quão estranho me é ver pessoas vivas e túmulos convivendo de forma tão natural como se não houvesse limites entre vivos e mortos.


Não falo nem do ponto de vista religioso, que me interessa particularmente, mas do ponto de vista das relações entre as pessoas. Mesmo o mais incrédulo ateu ou o agnóstico convicto hão de considerar que mortos e vivos não se misturam. Para estes principalmente, pois com o fim da existência física, o que resta ali é carne que vai apodrecer e virar partículas de carbono com o passar dos anos. A pessoa que existiu não existe mais. Mas de qualquer forma, estas pessoas não experimentam estar próximos de túmulos e nem vêem isso como algo natural ou agradável.


Aqui, vivos e mortos vivem num mesmo mundo. O que nos leva ao universo social do vodu. Mortos e vivos formam uma unidade indissolúvel, onde não se trata necessariamente de uma separação entre corpo físico e alma imaterial, mas de uma compreensão sobre a existência humana. As pessoas, no campo conceitual do vodu, são mais do que sua existência física, sendo esta apenas uma das possíveis dimensões da existência. O ser humano, a pessoa, é antes um conceito para além da matéria física da qual ela é feita. Logo, nem mesmo a noção de alma e a dicotomia corpo/alma, podem dar conta deste “conceito”, porque, como insisto não se trata de falar em duas metades, mas de uma unidade conceitual.


Ora, neste sentido, a morte pode não ser um lugar “poluidor”, porque ela passa a “não existir” de fato. Túmulos são apenas sinais de uma existência física que se encerra, mas que permanece constantemente junto dos vivos, que requer destes, atenção e cuidados. Que eventualmente se manifestam sob diversas formas requerendo dos vivos o cumprimento de suas obrigações com os mortos. Os mortos estão presentes o tempo todo e exigem o cumprimento de certas formalidades, não querem ser esquecidos, por isso, podem estar ali, o tempo todo, como alguém que nunca foi embora de fato, ou que deixou algo para que não fosse esquecido.


Quando estive aqui pela primeira vez imaginei que estes pequenos túmulos fossem apenas uma mera coincidência, em função de estarmos no campo, e que as cidades no campo não tivessem cemitérios públicos, como aqueles que vira em Port au Prince, Pétion Ville, Delmas. Porém, a minha surpresa e meu espanto aumentaram no ano passado, quando estive novamente em Jacmel, e circulando por uma área que ainda não conhecia da cidade, vi seu cemitério municipal. A coisa fica ainda mais confusa, se julgasse que as sepulturas no campo fossem túmulos pequenos e humildes, mas já vi grandes jazigos, de famílias “conhecidas” e mesmo o menor dos túmulos, nas mais humilde casa, não é uma cova rasa, marcada apenas com uma cruz. Há sempre uma pequena construção em alvenaria sobre estas sepulturas, indicando um cuidado particular em erguer um túmulo para o morto da família.


Ainda não sei exatamente como caminharão as minhas investigações por aqui, mas certamente estes túmulos e essa onipresença da morte deverão ser objetos de investigação. Mesmo que eu pretendesse me restringir exclusivamente aos aspectos econômicos da religião vodu, estes cuidados com os mortos pressupõem uma série de custos e despesas que são parte importante de uma discussão sobre a economia das religiões.


Bem, espero poder voltar a escrever com mais freqüência para os amigos...



Abraços e saudades






P.S.: Em pânico com o futuro do Fla na Libertadores, mas convencido que o 30° Título Carioca do Flamengo caminha célere... Fé em Deus e em São Judas Tadeu, nosso leal interventor.