quarta-feira, 1 de julho de 2009

Não, eu não estou irritado e nem cansado... Apenas estou enxergando melhor

"Sobre o incidente em frente ao Palácio você tem interlocutor previlegiado.

Porquê nào o busca para saber a verdade e o que está sendo feito para comprová-la pra o grande público?

Você está cansado fisicamente. Isto é um fato. Até que ponto isto influencia a sua observação apaixonada deste país que amamos?"


Escreveu um anônimo no meu blog...

Ok. Em primeiro lugar, teríamos que qualificar aquilo que chamamos de verdade. Uma das verdades incontestáveis é que o sujeito que foi morto em frente à Catedral de Port au Prince tomou mesmo um tiro. Outra verdade é que parece que nossos "Soldados da Paz" atiraram mesmo em direção aos "manifestantes" que saíam de uma (perigosa?) missa na Catedral de Port au Prince, uma celebração aparentemente pacífica à morte de uma liderança popular, o Padre Jean Juste.


Ainda que eu duvidasse disto ou mesmo que estivesse enganado, creio que meu cansaço nada tem a ver com o meu juízo sobre os fatos.


Quanto à minha irritação, bem ela talvez seja um fato, mas não decorre do cansaço, decorre por exemplo, de ouvir de outro interlocutor privilegiado que, realmente, do ponto de vista militar esta missão é marcada pela coragem e pela decisão no agir do comando brasileiro, o que é visto em termos de missões da ONU como algo positivo, sendo que, no entanto, do ponto de vista dos direitos humanos (isto não se refere de modo absoluto à intervenção brasileira, mas à missão como um todo), esta missão apresentaria falhas graves. Portanto, não acho que esteja faltando com a verdade quando faço as minhas críticas a esta missão, mas apenas apresento o meu ponto de vista, sem patriotadas exageradas.

Militares tem grande dificuldade em aceitar os seus erros. Uma vez conversando com um oficial das forças armadas, este se recusava a aceitar que houve uma ditadura e que esta ditadura matou e torturou pessoas. E quanto a tortura este dizia apenas que ela existe em todo lugar. Ora, suponho que a partir disto esta pessoa não veja defeito em torturar alguém, se for por um bom motivo. A velha máxima de Maquiavel, "os fins justificam os meios" (fica aqui uma pergunta: como se define um "bom motivo" para justificar a tortura?). Quanto à ditadura, ele me dizia que foram realizadas eleições. O que ele esquecia de dizer é que, em 1978, quando o partido da ditadura perdeu as eleições, eles criaram senadores e governadores "biônicos", garantindo assim a eleição do candidato militar nas eleições indiretas para presidente, João Figueiredo. Eis o que os militares daquela época chamavam de democracia. Isso mudou? Espero... História. O que isso teria a ver com a presente discussão? Esclareço.


Errar é humano. Eu erro, ainda bem. Não sou perfeito. Mas não "falseio com a verdade," porque "verdade" pode ser um ponto de vista. O meu é esse, doa a quem doer. Não tenho compromisso algum com as Nações Unidas e nem com os militares brasileiros que estão aqui, senão alguns laços de camaradagem com algumas pessoas que penso serem boas pessoas. Seria mais honesto e sensato reconhecer erros e corrigi-los. No entanto, isto parece ser difícil, não parece ser a prática nas missões de paz da ONU. Eu não confundo, porém, as coisas. Sobretudo porque pessoas que vivem aqui como eu e um comentador deste blog, que me critica por apresentar o meu "ponto de vista antropológico", uma delegação de haitianos foi ao Congresso Nacional demandar de nossos senadores a retirada do Brasil da MINUSTAH. Acho que este é um argumento bem mais "verdadeiro" que o meu e de meu simpático comentador e crítico, posto que venha de haitianos insatisfeitos com a situação do país e a presença da ONU aqui.


Ou não, é apenas mais um ponto de vista que deve ser considerado. A única coisa que "meu ponto de vista antropológico" faz é considerar todos os demais pontos de vista, sem assumir o meu como "único e verdadeiro" sobre esta questão. Meu comentador também não considera o pressuposto deste blog: são relatos impressionistas. Eu não sou jornalista, nem porta-voz de ninguém. Meu amigo e grande intelectual Fred Coelho tem exaltado exatamente isto na net: sua capacidade de oferecer diversos pontos de vista. Aqueles que criticam o meu, terão todo espaço aqui mesmo para apresentar o seu.



Quando analiso uma situação, eu não olho para indivíduos. Para mim estes não existem, senão quando inscritos em configurações sociais. E o que vejo aqui é sempre uma maneira de reduzir os haitianos a uma condição de inferioridade. Daí o título da postagem: Alteridade Redutora. Sim, porque há um pressuposto que a diferença é sempre entendida em termos qualitativos.


Não ignoro as virtudes da "Ajuda Humanitária" e das "boas intenções" destas missões. Espanta-me, no entanto, ao conversar com pessoas que participaram de outras intervenções da ONU em outros lugares do mundo, perceber exatamente isto: estes povos são incapazes de se governar, governemos por eles. Uns exaltam o fato da ONU em algumas missões ter assumido o Estado, e por isso ter garantido a condução do processo de democratização e estabilização com mais eficácia. Outros destacam o fato de que alguns povos "vivem mergulhados na barbárie e na falta de democracia", como se o modelo democrático pudesse realmente garantir que as coisas "melhorem" no país. Melhorem para quem "cara pálida"?


Os processos de estabilização da ONU visam exclusivamente garantir que as elites locais retomem o poder e garantam o desenvolvimento de um modelo que nem sempre é aquele que estes povos desejam. E insisto, a única coisa que me faria defender a permanência da ONU aqui é para evitar que os EUA tomem isso aqui, como fizeram no início do século XX. O povo fica de fora destes processos, como ficou de fora das eleições "democráticas" realizadas aqui. Ouvi dizer: melhor haver eleições ruins do que não haver eleições. Pergunto de novo: "Melhor" para quem "cara pálida"?


Sim, levar alimentos para quem tem fome é importante, e destaco que se não fosse a presença da ONU, muitos aspectos da cooperação não poderiam existir simplesmente, porque não haveria condição disto chegar ao país, conforme disse em postagem anterior:


"De outro lado, como seria realmente possível a nossa presença aqui, digo, nós "os bem intencionados paladinos da verdade" críticos desta visão estereotipada, mas nem um pouco menos comprometidos com a necessidade de uma "estabilidade" que nos permita ao menos estar aqui? Eis a suprema contradição... Sem a missão da ONU não haveria a segurança mínima necessária para este esforço de internacionalização de nossa antropologia, e no mesmo pacote, outras coisas: o desenvolvimento de um novo perfil para a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) do Ministério das Relações Exteriores, a internacionalização de nossas organizações não governamentais, a expansão continental de nossas empresas... Ou seja, ambiguidades e contradições de processos desta ordem."(Ayitian Nuvels, segunda-feira, 22 de junho de 2009)


Não percebe meu interlocutor que estou incluído entre os “bem intencionados paladinos da verdade” críticos (ferozes, incluo) desta visão estereotipada. E que, apesar do meu cansaço, ao qual ele atribui as minhas críticas que falseiam a verdade, eu reconheço “as ambiguidades e contradições de processos desta ordem”. Pergunto eu, estaria meu interlocutor anônimo preparado para lidar com suas ambiguidades? Espero que sim.


Portanto, quando falo destas missões da ONU, não tenho a ousadia de achar que estou certo, mas me vejo no direito de criticar aquilo que chamo de "desvio original" das missões de paz: o seu caráter colonialista e redutor dos povos.


Ouço muito por aqui as pessoas de várias partes do mundo, sobretudo de países da Europa, apontarem o Brasil como uma potência mundial emergente. O "país do futuro" estaria se tornando uma realidade presente? Não sei... O meu pesadelo, no entanto, é ver que este país pode cometer o mesmo erro de potências anteriores, mas sobretudo, cometer o erro de ignorar seu próprio passado e suas contradições e agir como os velhos países colonialistas. Já ouvi de alguns estudantes haitianos a crítica ao Brasil, referindo-se a possível ranços imperialistas. Estarão eles errados? Não estaremos nós cegos e inebriados com o poder, querendo guiar aqueles que julgamos cegos?


Este é o meu pressuposto. Não é defender e nem apresentar a verdade. Quanto mais conheço esse país, quanto mais vivo nele e leio sobre ele, menos tenho a pretensão de dizer que conheço algo. Temo que alguns, enganados pelo brilho do ouro dos tolos, achem que realmente são especialistas na cultura e no conhecimento sobre este povo.



quarta-feira, 24 de junho de 2009

Alteridade redutora ou cegos guiando outros cegos em meio à escuridão

É possível que toda esta irritação seja mesmo decorrente de meu cansaço e de minha vontade de voltar para casa. Pode ser que não. Pode ser apenas a constatação de que as pessoas que vieram das mais diversas partes do mundo para "ajudar a estabilizar e desenvolver o Haiti" não entendem absolutamente nada sobre relações humanas. Ou melhor, estes entendem mas apenas de uma maneira de pensar que opera com uma redução do "outro" a um "inferior". Em minhas primeiras aulas de antropologia aprendi uma fórmula que até hoje repito como uma máxima que permita compreender as formas de tratamento das diferenças culturais: não confundir alteridade com inferioridadade.

Em primeiro lugar, a simples ideia de que alguém venha de algum lugar para outro "ajudar alguém" já supõe algo um tanto estranho. Sim, porque pressupõe alguém que tem "necessidades" e que alguém venha "atender" estas. Pressupõe uma "falta" de um lado, do lado de quem recebe, e a "abundância" do lado de quem doa. Pressupõe, enfim, "força" de um lado, e "fraqueza", do outro.

Este jogo de palavras não e apenas um jogo, mas exprime uma relação de poder. Há, enfim, um lado que tudo pode, dotado de toda potência de fazer, de realizar coisas, e um lado desprovido de qualquer poder, de qualquer autonomia. Há de um lado, tudo, de outro nada. Não há cultura, não há linguagem, não há nada. Há um vazio que será preenchido com "cultura", "educação", "desenvolvimento", "democracia". Estamos diante de relações que transformam qualquer diferença em uma relação de subalternidade.

Conversando com alguns membros da Missão da ONU é fácil perceber que esta relação não se refere especificamente ao Haiti, mas a todos os lugares onde se encontram as missões das Nações Unidas. Militares e civis chegam a estes países imbuídos de "nobres valores civilizatorios" e encontram "populações mergulhadas no obscurantismo e em tradições culturais inúteis que impedem a chegada do desenvolvimento". Nunca o ideal iluminista da civilização esteve tão presente, e creio que nem mesmo no século XIX, nos processos de colonização da África e Ásia deste período, pudéssemos encontrar uma visão tão redutora da diferença como esta que os modelos de intervenção humanitária colocam. Na verdade, revestido deste verniz "humanitário" encontramos a pior forma possível de colonialismo, escondido sobre camadas de boas intenções.

Comentam estes mesmos que estes povos "não querem ser ajudados", "não estão prontos para democracia", "não são racionais". Com estas afirmações, sustentadas pelas suas vastas experiências ao redor do mundo com os mais variados povos, estes "agentes da civilização" especializam-se em teorizar sobre "a influência do clima no desenvolvimento dos povos", constatando que as zonas quentes do mundo são menos desenvolvidas antes em função da abundância de meios, mas também por uma preguiça crônica destes povos. Percebem que as culturas tradicionais são um empecilho para o desenvolvimento de novas técnicas de produção "mais racionais". Que estes povos se recusam a aceitar uma educação para o desenvolvimento pois encontram-se apegados aos seus costumes tradicionais. Um caminhão de preconceitos e estereótipos que desembarca junto aos bem intencionados "soldados da paz". Não bastasse apenas tal caminhão desembarcar, é ele que orienta os laços entre estes agentes e a população local. Há pouco ou nenhum esforço em compreender que a diferença cultural não se processa em termos qualitativos.

Essa ideia de estar se relacionando com alguém que é (naturalmente?) inferior é ainda mais cruel que aquelas relações coloniais do século XIX, que se sustentavam em teorias racistas e num arraigado etnocentrismo. Não, agora, pelo contrário, eles são "humanos" como nós e, de fato, eles são "até" movidos pelos mesmos princípios. Mas seu estado de confusão mental e seu atraso crônico impedem eles de pensar de maneira racional e coerente. A perversão é mais perigosa ainda, pois eles são "iguais" porque partilham de uma mesma essência que nos faz humanos. O problema é que "eles ainda não nos alcançaram". Nós somos, de alguma forma, sempre melhores do aqueles a quem ajudamos...

Enquanto for este o pressuposto de qualquer ação humanitária coordenada pelas Nações Unidas, todas as missões da mesma natureza que esta missão de estabilização no Haiti estão condenadas a um fragoroso fracasso.

Estranho o fato de que as missões da ONU impedem qualquer vínculo entre seus integrantes e a população local, que não seja no âmbito de relações de trabalho. Logo, você tem que trabalhar com o povo, mas não pode se envolver com eles. Envolver-se significa conhecer sua cultura, seus hábitos, sua maneira de ser, imiscuir-se na vida cotidiana destas pessoas. Como ajudar alguém que não conheço?

O pressuposto da ajuda humanitária, porém, é a impessoalidade... Sim, não há relações entre pessoas, mas entre sujeitos (aquele que doa ou que ajuda) e objetos (aquele que recebe ou é ajudado). A impessoalidade é tal que não se deve conhecer o nome ou a vida das pessoas, senão quando necessário...

Eis então o ponto... Como um cego, alguém que não enxerga o outro como sujeito, mas como um objeto, aquele que não pode ver o outro, pode tentar guiar este outro por algum caminho?

Na verdade, os povos "ajudados" não estão, nem um pouco cegos, pelo contrário, enxergam perfeitamente e com o passar do tempo cada vez melhor. O problema é que aqueles que querem guiar estes povos, estes sim, são cronicamente cegos: sua cegueira não lhes permite ver sua própria estupidez e sua ignorância. Reputam a estes povos uma cegueira e ignorância que não existe senão neles mesmos. Porém, estes insistem em afirmar que sabem o caminho e em apontar as saídas.

Não sei como e nem quando, mas sei apenas que se não mudarem os pressupostos destas "Missões de Paz" ou "Ajuda Humanitária" o mundo caminha invariavelmente numa espiral de exclusão e de acirramento dos conflitos num prazo não muito longo...

Cuidado com o despertar dos povos colonizados. Uma vez houve um Haiti... Da segunda vez haverá centenas de milhares de Haitis espocando pelo "mundo civilizado" e desta vez não será possível conter o grito por dois séculos.


segunda-feira, 22 de junho de 2009

Por quanto tempo ainda? (Ou "Por (in)feliz (?) coincidência")

No último fim de semana realizou-se o segundo turno das eleições senatoriais no Haiti. Estas eleições tem como objetivo completar o número de 30 (trinta) senadores no parlamento do país. Atualmente o Senado conta com apenas 18 senadores. Com a eleição realizada o número de senadores chegaria a 28, pois seriam eleitos 10 senadores, um para cada departamento do país. Faltariam exatamente dois: um, que fora cassado em virtude do problema da dupla nacionalidade, um debate fortíssimo no país, outro, por renúncia em virtude de problemas de saúde. Parece-me que o sistema político-eleitoral não prevê a existência de suplentes, que seria neste caso a solução para completar o número de senadores constitucionalmente previsto.

Desta vez, por (in)feliz (?) coincidência eu não participei como Observador Internacional neste segundo turno.

O quadro em que se realiza tal eleição, no entanto, está marcado por inúmeros conflitos e tensões. Ao contrário do primeiro turno, onde os incidentes ocorridos poderiam ser considerados fatos isolados, por uma (in)feliz coincidência, a semana que antecede as eleições foi marcada por inúmeros problemas e confrontos entre a Polícia Nacional Haitiana (PNH), as tropas militares da MINUSTAH e diferentes manifestantes. Confrontos que denotaram excessos de força por parte dos agentes responsáveis pela manutenção da ordem.

É curioso que tal fato ocorra neste exato momento, quando fiz uma crítica aberta aos grupos de pressão que estiveram no Congresso Brasileiro pedindo a saída do Brasil da Missão da ONU. Devo, de fato, fazer um mea culpa, pois as coisas até este momento não haviam chegado aos limites atingidos nas duas últimas semanas. Como diria o nosso presidente, "nunca antes na história desta missão" os conflitos com manifestantes de rua chegaram a este ponto. E mesmo no ano passado, quando os conflitos chegaram às portas do Palais National, não havia ocorrido nenhum episódio de excesso de violência contra manifestantes de rua. Neste caso, as tropas cumpriram seu mandato de garantir a segurança dos poderes instituídos. No momento atual, parece que houve excesso de força, o que vem gerando inúmeras críticas.

Ouvi de um informante que estes problemas decorreriam do fato dos EUA (?) terem extra-oficialmente acesso (e "controle", segundo o mesmo informante) à PNH, e isto provocaria uma espécie de dupla entrada no comando: de um lado os agentes de polícia estadunidenses e de outro a Missão da ONU. A resposta poderia ser boa, não fosse o fato de que o excesso de força teria vindo dos soldados da MINUSTAH e, o pior de tudo, dos soldados brasileiros.

Embora os desmentidos da porta voz da MINUSTAH afirmem que os soldados teriam atirado para o alto, no intuito de dispersar a turba, imagens recolhidas e divulgadas pelas TVs, que parecem estar disponíveis no Youtube, dão conta de que estes teriam atirado em direção aos manifestantes. Em contrapartida, a MINUSTAH afirma que os manifestantes estariam atirando pedras na direção dos soldados. Há também o fato de ter sido incendiada uma viatura da UNPOL (Polícia das Nações Unidas), força policial formada por agentes de vários países (inclusive do Brasil).

Confesso que neste momento sinto-me em meio a uma guerra de versões no interior de uma central de boatos. Logo, meu mea culpa, não é por uma suposta defesa da Missão da ONU no país e da liderança brasileira neste processo, mas por realmente, mesmo estando aqui e agora, ignorar o que está realmente acontecendo e ser tão impressionista quanto qualquer matéria (mal) escrita por jornais brasileiros, sem nenhum compromisso ético (sim, porque qual veículo de comunicação é confiável no nosso país?). Tenho (e sempre tive) inúmeras críticas a esta missão, mas sempre me pergunto o que ocorreria se a MINUSTAH saísse do país nos próximos seis meses. Aliás, temo sempre pelo pior, que seria uma intervenção direta dos EUA neste país, "em nome da segurança hemisférica".

Aliás, este é o ponto que devemos reter no que tange esta missão: o que aconteceu entre a queda do Presidente Aristide e a chegada da Missão das Nações Unidas?

Vamos retornar ao ano de 2004, quando uma aguda crise social atingiu o país, gerando intensos conflitos entre os poderes instituídos, o presidente eleito Jean-Bertrand Aristide, e inúmeros setores da sociedade civil e movimentos sociais que se opunham a este governo. A crise insustentável gerou intensas clivagens que provocaram reações violentas de ambas partes. Acusa-se Aristide de ter se cercado dos chefes das gangues dos bairros pobres da capital do país, para resistir a uma eventual queda do poder. De outro lado, instrumentalizados por "forças ocultas" (leia-se os governos dos EUA, França e Canadá, insatisfeitos com Aristide) grupos diversos, incluindo grupos armados (como a "Armée Canibale" e o grupo de Gui Phillippe, que se organizou desde a República Dominicana, entrando no país pelo Plateau Central), estudantes (o movimento conhecido como "GNB") e um grupo de intelectuais e empresários (O grupo dos "184"), grupos que criaram um quadro de tensão social que "obrigou" uma intervenção de uma força internacional formada por (coincidência?) por Canadá, EUA e França, visando "evitar um quadro grave de violação dos direitos humanos" após a "renúncia" (segundo contam os partidários dos presidente deposto Aristide, forçada por um "sequestro" pelos marines dos EUA) do Presidente. Seis meses depois, após a instalação de um governo provisório, em outubro, as Nações Unidas organizam uma missão humanitária/militar liderada pelas tropas brasileiras.

Eis o quadro...

Interessante é ver hoje, a Missão da ONU associar grupos que são, pelo menos no contexto em que se deu a queda de Aristide, antagônicos e de certa maneira, inimigos viscerais, como os estudantes e o Movimento Lavalas, partidários do presidente deposto. Ouvi de um militar que as manifestações dos estudantes estariam sendo fomentadas pelo Lavalas (sic). É bem verdade que a pauta dos estudantes parece um tanto ampla e difusa. Está referida desde questões internas da Université d'Etat d'Haïti, tais como o caráter elitista e conservador do curso de medicina, que excluiria os alunos de classes populares, qualidade de ensino, críticas aos professores que não teriam compromisso com a Universidade, passando pelos problemas econômicos do país e a votação da lei do salário mínimo, cujo valor hoje não ultrapassa US$ 50, e o projeto que tramita hoje aumentaria para algo em torno de US$ 150, até a retirada das tropas da ONU do país. No entanto, não vejo de maneira negativa tal pauta, exceto pelo fato de atirar em muitas direções e não possuir uma estratégia e um interlocutor definido: com quem o movimento dos estudantes está dialogando: com a direção da universidade? Com o legislativo? Com o executivo? Com o comando da Missão da ONU? Com todos estes ou com nenhum destes?

Posso pecar por um excesso de pragmatismo, mas em um quadro institucional fraco, com uma grande dispersão das forças políticas, fico pensando nos efeitos práticos e na capacidade de obter vantagens ou vitórias de um movimento desta ordem, tão disperso e tão difuso, excessivamente localizado na capital do país, mais precisamente em uma única área: o Champ Mars e os arredores do Palais National. Um movimento que não conta nem com o apoio maciço da população, que aliás, exceto pelos incidentes ocorridos recentemente, se mantém indiferente a tal movimento.

Ao mesmo tempo, começamos a perceber certo desgaste (e talvez, porque não, inutilidade) da Missão da ONU, que afinal não consegue resolver aquilo que veio fazer: "estabilizar o país". Afinal, o que quer dizer isso? Criar um clima favorável para que as elites políticas e econômicas do país criem um quadro de institucionalidade que permita o país "funcionar" com relativa "ordem"? A quem de fato interessa essa "estabilização" promovida pela ONU? Quem são os atores políticos que jogam este jogo?

Não assumi, ainda, uma posição de total descrença em relação a presença da ONU no país, mas confesso que quanto mais se aproxima a hora de partir, um tanto mais desiludido, percebo que não há no horizonte possibilidade alguma de acreditar que as coisas sigam por um caminho que seja realmente bom para o povo do país.

Um interlocutor que circula por altas esferas do país disse-me não ver grande vantagem na chegada de empresas brasileiras (leia-se, "empreiteiras"), que se especializaram em nosso país com o lucro fácil e com enriquecimento em larga escala. Aqui eles apenas farão mais dinheiro, julgando (como apostaram em lugares como Equador, por exemplo) numa liberdade absoluta para seus negócios. O que ganhará o Haiti com isso? Alguns empregos, empreendimentos, mais presença estrangeira, menos autonomia...

Como fará o Estado haitiano para converter estas presenças estrangeiras, que vem ao país em busca do lucro fácil e da baixa tributação, em benefícios como saúde pública, escolas públicas, saneamento básico, água potável, entre outras coisas, para as população pobre do país? E qual o papel que a Missão da ONU desempenha neste cenário? Ela "estabiliza" para haver investimentos? Investimentos em quê? Infra-estrutura (estradas, redes de esgostos e água, geração de energia, etc.) para quem? "Vamos fazer o bolo crescer para depois dividir"? Dividir entre quem?

Achei extraordinário o lançamento do livro de Jean Casimir, sociólogo haitiano, que fez pesquisa no Nordeste, na região da plantation, sobre as elites do país: "Haïti e ses élites: un dialogue de sourds", onde analisa a formação das elites nacionais, desde os affranchis do período colonial, e de seu papel como elemento amortecedor de tensões entre o poder colonial e os escravos bossales, até o papel que aqueles desempenharão no processo de independência.

O círculo então se fecha: desarticulação entre movimentos sociais, descompromisso das elites locais com o desenvolvimento social do país, intervenção estrangeira. Como se estas coisas vivessem um processo de retroalimentação que, como supôs o importante pesquisador que esteve no país nos anos 50, antes de Duvalier, não permitirá nunca que o país encontre uma saída sem que estas três coisas se articulem. Em outras palavras, o decano pesquisador disse com todas as letras que o Haiti não se levanta sozinho...

Custo a crer...

Não vejo, porém, saída... Só penso que a Missão da ONU não poderá ficar eternamente no país sem que isso represente o total fracasso do modelo de intervenção humanitária que este tipo de missão sugere. A ONU vai colecionando fragorosos fracassos em inúmeras partes do mundo, mostrando que o único papel que ela desempenha no mundo é o defender os interesses do Grande Irmão do Norte. Se a presença do Brasil nesta missão se reduzir a reproduzir o modelo consagrado, sem agregar algum tipo de valor, podemos dizer que este será um dos maiores erros da nossa política externa.

Há, no entanto, outro lado. Se conseguirmos agregar valor, e fugirmos de velhos modelos imperialistas, mas estabelecermos um tipo de cooperação bilateral do gênero sul-sul, é possível que a missão, ao se desmilitarizar, traga possibilidades de construir um projeto realmente de desenvolvimento do país, não a partir de uma visão intervencionista, mas a partir do respeito às particularidades e aos processos históricos desta sociedade. Falta, entretanto, uma visão menos "civilizatória" a esta missão. A MINUSTAH não respeita e nem compreende nada sobre este país.

Vejo claramente que todos que chegam ao país, apostam nos estereótipos e nas visões consagradas sobre o Haiti e seu povo: uma massa inculta e incivilizada. Desta maneira será impossível pensar em construir algo em conjunto com este povo. A idéia de barbárie sempre permeia a visão deste outro que supomos tão distinto e ao qual reputamos uma idéia de incapacidade ou de "infância mental", na ausência de um termo mais adequado. Na visão de algumas missões, ONGs e cooperantes "o Haiti não se desenvolve por sua absoluta incapacidade de se adequar aos modelos civilizatórios que nossas missões aqui propõem". A MINUSTAH não é nem um pouco diferente, aliás, na visão de seus militares e principalmente destes, este povo não é capaz de se governar e somos nós que vamos dar a eles os melhores instrumentos: a democracia, a cultura e o desenvolvimento.

De outro lado, como seria realmente possível a nossa presença aqui, digo, nós "os bem intencionados paladinos da verdade" críticos desta visão estereotipada, mas nem um pouco menos comprometidos com a necessidade de uma "estabilidade" que nos permita ao menos estar aqui? Eis a suprema contradição... Sem a missão da ONU não haveria a segurança mínima necessária para este esforço de internacionalização de nossa antropologia, e no mesmo pacote, outras coisas: o desenvolvimento de um novo perfil para a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) do Ministério das Relações Exteriores, a internacionalização de nossas organizações não governamentais, a expansão continental de nossas empresas... Ou seja, ambiguidades e contradições de processos desta ordem.

Costumo dizer a todos meus interlocutores que o que há de mais significativo nesta experiência de pesquisa no Haiti e dar-me conta das contradições de nosso velho mundo, não porque elas sejam particulares do Haiti, mas são resultado de várias dimensões da experiência humana em todo este vasto planeta. O Haiti, como dizia a minha grande mestra Professora Lygia Sigaud, é um desafio ao pensamento, mas ao mesmo tempo ela dizia também: o que é que não nos desafia o pensamento?




sábado, 25 de abril de 2009

O Pinhão Manso e o Biodiesel - A cura dos males do Haiti?

Estive esta semana na Biblioteca Nacional e na Biblioteca da Instituição Religiosa Saint Louis Gonzague. Ambas são sempre citadas em bibliografias de obras sobre o vodu como grandes repositórios da literatura etnológica do país. Ja estivera antes na biblioteca do Bureau de Ethnologie, fundado pelo escritor e etnólogo Jacques Roumain no início dos anos 40, que infelizmente se encontra em estado um tanto precário, apesar do bom conjunto de obras disponíveis.

Entre os livros encontrados, achei "Mythologie Vodou (Rite Arada)" de Milo Marcelin (1949), onde há um excelente coleta de dados sobre os lôas do Rito Rada. Segundo a literatura, o vodu se divide em duas linhas pricipais, o rito Rada (ou Arada), dos
lwa ginnen (lôas guiné), os ancestrais africanos e o rito Petro, que são os lwas créole (lôas créole), os lôas nativos do Haiti, as divindades originárias daqui. Num dos capítulos, Marcelin fala de Ayizan Véléquete, esposa de Atibon Legba, protetora e deusa das águas doces, também dos mercados, dos lugares públicos, portas e entradas diversas. Ayizan Velequeté é uma das divindades mais velhas, e já fora objeto de um culto particular, distinto dos demais lôas. Segundo Marcelin, antes de bay manje lwa yo ("dar comida aos loas"), a comida deveria ser separada em duas metades iguais, uma das metades era destinada a Ayizan, a outra metade dividida entre os demais lôas. Afirma ainda que cada lôa tem um "reposoir", uma árvore que serve de residência para o lôa ou divindade. A árvore destinada a Ayizan é o médicinier béni ou gwo metsyien (Jatropha curcas L.). Traduzindo, a árvore destinada a Ayizan é o bem conhecido dos defensores dos biocombustíveis "Pinhão Manso".

Esta semana num dos dois maiores jornais do país
Le Nouvelliste lançou uma matéria sobre a Jatropha, que como todas as questões relacionadas aos biocombustíveis se encontra cercada de polêmicas, sobretudo por que os defensores do biodiesel não cansam de apontar as vantagens do desenvolvimento destas tecnologias . Polêmicas a parte, isto me levou a uma conversa que tive ontem com um velho amigo sobre as saídas da crise haitiana. Falávamos das eleições e do beco sem saída em que o país parece estar metido. Este amigo acredita que é melhor mesmo que haja eleições, mesmo que ruins. Retorqui dizendo que eleições desta ordem servem apenas para deslegitimar o sistema representativo e denunciam a sua farsa, pois cada vez menos gente confia nos políticos e nas eleições.

Este não é um fenômeno particular do Haiti, mas parece demonstrar a gravidade do problemas dos rumos da democracia representativa. Aliás, a democracia virou, pelo menos em casos como o haitiano, mera representação, no sentido de
encenação ou de figurar como símbolo de algo. Neste sentido, a democracia ocidental cada vez mais, ao invés de se fortalecer em processos como o iraquiano, afegão ou haitiano, vai perdendo legimitidade junto às populações locais e cedendo espaço para "outra coisa". Qual seria essa "outra coisa"? Meu amigo perguntou-me a resposta deste dilema, e qual seria a outra saída. Ou apenas lhe respondi que se soubesse, teria achado a chave da história da humanidade. O certo é que o "fim da história" sonhado pelos liberais dos anos 90 ou pelos comunistas de todas as eras ainda está bem longe, mas é certo também que em tempos recentes a democracia liberal pode estar começando a sofrer os seus mais fortes golpes: a primeira eleição de Bush nos EUA já afetara gravemente a credibilidade do sistema, e estas eleições no Haiti são outra prova. Como disse também ao meu amigo, se dissesse algo tão bombástico assim, ou eu seria um profeta iluminado, ou seria um grande mentiroso.

Entramos então numa discussão sobre o papel da comunidade internacional no Haiti e os projetos para o desenvolvimento do país. Parece claro que a saída consiste em garantir às comunas do interior do país a possibilidade de desenvolvimento, possibilitar o renascimento da vida camponesa no país. Somente, através da recuperação agrícola, da criação de oportunidades no campo para as pessoas é que será possível iniciar uma recuperação econômica do Haiti. O país é uma das maiores vítimas da crise alimentar. O declínio da produção rural decorre, sobretudo, da falta de uma política agrícola e da falta de competitividade da produção nacional contra os produtos alimentares importados. A crise ambiental agrava os efeitos do esvaziamento do campo e do inchaço das cidades: as pessoas saem das pequenas comunas do interior para as capitais departamentais e destas para Port au Prince. Depois de Port au Prince, como debatia com o amigo, a próxima saída era o aeroporto. O amigo então insistiu no fato de que, uma das formas de tirar dinheiro dos EUA seria exatamente o controle da imigração, através deste desenvolvimento local. Eu poderia até concordar, porém, não há tantos boat people assim... E embora altos, os investimentos estrangeiros no país, sobretudo aqueles vindos EUA, estes parecem não chegar ao interior do país.

A constituição do país prevê uma descentralização econômica e administrativa. Esta, no entanto, está amarrada em interesses não muito claros dos sucessivos governos haitianos, que não possuem políticas para o desenvolvimento das outras regiões do país e concentram a aplicação de recursos na capital nacional. Nem mesmo as capitais departamentais recebem grandes investimentos.

Entre as supostas virtudes da Jatropha, o nosso "pinhão manso", estaria o fato dele ser uma planta nativa, bem adaptada às condições ambientais desfavoráveis. Outras vantagens seriam as inúmeras possibilidades de seu cultivo em consórcio com outras culturas, algumas delas de produtos alimentares de alto valor agregado (açaí, palmitos diversos, gado, etc.). Seu sugestivo nome médecinier e suas características de erva medicinal, utilizada em diversos fins, no tratamento de feridas e inflamações, como repelente natural de insetos, antiséptico, nos fazem perguntar se, de fato, ela não seria uma cura para os males do país...

A preocupação dos críticos dos biocombustíveis é a criação dos grandes "desertos verdes", quando a monocultura pode não apenas expulsar as outras culturas, como reduzir a produção de alimentos e facilitar a concentração de terras, o que sem dúvida agravaria ainda mais os muitos problemas do campo no Haiti. De outro lado, há além da produção do biocombustível, os resíduos quando aplicados sobre biodigestores produzem gás, que pode ser utilizado para a geração de energia elétrica, um dos grande problemas do país. Panacéia?

A sabedoria dos médsin fèyi (médicos das folhas) e dos herdeiros dos conhecimentos tradicionais do vodu que cultuam este arbusto como um repositório de Ayizan, além dos grandes Mapous, quase extintos, que são a morada de Loco Atissou, provocam uma reflexão sobre o lugar das plantas e vegetais nas religiões tradicionais. O vodu é uma religião que cultua a natureza, e cada vegetal, cada mata é uma habitasyon de uma divindade, de um lôa, que deve ser preservado. Tal e qual o Brasil, onde as religiões tradicionais, afro-brasileiras e indígenas estão na vanguarda da luta pela preservação, aqui no Haiti o vodu pode ser o lugar deste despertar para a preservação dos mapous, da busca de alternativas para um desenvolvimento sustentável do Haiti.

Abraços a todos,

Ansioso pela grande final, a terceira...


quarta-feira, 22 de abril de 2009

Casa abandonada...

Quero me desculpar com todas as pessoas que vinham postando comentários no meu blog... A verdade é que a casa andou meio abandonada...

É sempre meio difícil admitir certos momentos de esterilidade ou o simples fato de estar cansado de chover no molhado, de repetir as fórmulas. Quando retornei ao país no início do mês de fevereiro, estava realmente vivendo um momento novo, uma espécie de "reentrada" na atmosfera, o que equivale a dizer que me sentia como um astronauta que voltava ao mundo. Estranha relação que desenvolvi com o Haiti. Minha casa, meu país, minha vida e minhas coisas estão no Brasil. No entanto, parece que o ar leve, a atmosfera rarefeita das férias no Brasil, parece que minha ida ao Brasil foi como uma viagem ao espaço. Voltar então ao Haiti foi voltar ao mundo real, ao planeta terra.

E foi exatamente esse o sentido da minha primeira postagem quando voltei: o choque de realidade que o Haiti provoca.

Agora, pouco mais de dois dias após a postagem sobre as eleições, me dou conta disto: como o Haiti tem sido revelador na medida em que expõe coisas que não nos parecem óbvias à primeira vista.

Incomodou-me fortemente uma conversa com um outro observador que chegou a afirmar que "é melhor haver eleições ruins que não haver eleição alguma". Fiquei pensando se de fato a tal "comunidade internacional", tão ciosa dos rumos democráticos do "mundo livre", pensa desta maneira. Sim, porque volta e meia ouço aqueles que dizem que em Cuba "não há liberdade, não há eleições livres", pergunto: "houve, de fato, eleições livres no Haiti?". Ou ainda, como será que têm sido feitas as eleições no Iraque ou no Afeganistão? Será que elas são "livres"? É claro que os mais apressados dizem que Chávez é um ditador... Sim, talvez, mas será que as eleições do Haiti foram "mais democráticas" que qualquer pleito realizado na Venezuela nos últimos 10 (dez) anos? Não creio... No mínimo, estas eleições que fazem de Chávez um "ditador populista" foram mais concorridas que a esvaziada eleição para o senado do último domingo...

Será que a democracia, tão cara ao nosso mundo ocidental, se resume a isso? Fazer eleições ainda que pouco representativas e absolutamente distantes dos anseios populares.

Minha experiência neste país têm me mostrado um dado interessante: são inúmeras as organizações populares, os grupos chamados de "kombit" ou "têt ansanm", que visam organizar as pessoas em torno de idéias difusas sobre desenvolvimento. O fato é que em Jacmel, em Cité Soleil e Port au Prince, conhecemos (eu e outros colegas antropólogos que aqui estiveram) diversas organizações populares de caráter mais variado possível: trabalhadores rurais, religiosos, organizações de mulheres, organizações voltadas à educação. No entanto, ao se realizar uma eleição nenhuma destas organizações pareceu estar ligada a algumas candidatura, nenhuma delas se concretizou em grupos de interesse, nenhuma delas esteve ligada a partido ou organização política formal, que estivesse envolvida no processo eleitoral.

Como disse na postagem anterior, uma das reclamações foi exatamente que os candidatos a senador não possuíam nenhuma base política junto às populações.

Em contrapartida, os partidos políticos não parecem ter muita representatividade, isso parece ainda mais estranho, se nos dermos conta do número de intelectuais nacionais, como a própria primeira ministra Michelle Pierre Louis, que nunca fez parte de nenhum grupo político ou partido. Conversando com alguns intelectuais importantes do país, percebo que nenhum deles faz parte ou tem interesse de organizar-se em partidos políticos, embora estejam constantemente ocupando espaço na imprensa e na vida pública.

Qual seria então o vazio, o hiato que existe entre sociedade civil, estado, intelectuais, partidos, etc. e especialmente, o "povo" em geral?

Não posso dizer, mas percebo, de maneira ainda muito "naïf", que não parece haver interesse em resolver esse hiato, em preencher tal vazio. A presença da Minustah aqui dá uma sensação de estabilidade, que pode durar infinitamente, enquanto essa missão aqui permanecer. A ação da "comunidade internacional" e das ONGS mantém um funcionamento mínimo das coisas, que pode prescindir do Estado e a cooperação internacional completa o quadro, fazendo funcionar esse planetário, permitindo um falso equilíbrio entre forças díspares e desencontradas.

Aliás, uso provocativamente aspas para falar do povo, esta entidade abstrata e disforme da qual muitas pessoas daqui pensam não fazer parte, e por quem nós "blancs" fazemos todos os nossos esforços.

É no meio deste "povo" que ouço algumas vozes dissonantes pedir a volta de "Titid". Ouço-os dizer que este era "o único a se preocupar conosco".

E assim voltamos ao início ou à postagem anterior: se Aristide desenvolveu uma relação perniciosa com a massa e com isso tornou impossível reorganizar o espaço político em outros termos, qual seria a possibilidade de estabelecer, de fato, uma prática política democrática e popular no país? Há saída com a realização de eleições deste tipo?

Prepara-se a realização de um segundo turno das eleições no mês de junho... Será possível isso ou veremos novamente os mesmo erros serem cometidos?

Com a palavra a "comunidade internacional"?

Alguns me perguntarão, "por que não com a palavra o povo haitiano"?

Respondo: Me parece que o povo haitiano já deu a sua resposta sobre estas eleições...


Abraços

domingo, 19 de abril de 2009

Eleições no Haiti - Abril de 2009






“Fraude Eleitoral”, ou a minha experiência como Observador Internacional

Em primeiro lugar, nem sei se estou autorizado a expor as idéias que coloco aqui, mas ainda assim correrei o risco de expor a minha opinião sincera, para além de posições oficiais que tenha a defender, como sempre fiz aqui neste blog. Sempre pautei o lugar deste blog em minha temporada aqui no Haiti como um espaço livre das constrições do papel de intelectual acadêmico, bem como de qualquer relação com a presença brasileira no Haiti nos mais diversos níveis. Não quero também dramatizar o quadro, dizendo que estou fazendo algo contra a lei ou passível de censura. Pelo contrário, quero apenas deixar claro que não estou falando oficialmente, mas não posso me furtar do compromisso de falar daquilo que presenciei, passemos portanto ao que interessa aqui, sem mais delongas.


O título desta postagem é de fato uma provocação. A palavra “fraude” aparece entre aspas, porque há sempre um entendimento de que “fraude eleitoral” seja um desvio nas regras de um procedimento legal aprovado, em outras palavras adotei o significado estrito de fraude que ora exponho, segundo o Dicionário Houaiss fraude é qualquer ato ardiloso, enganoso, de má fé com o intuito de ludibriar outrem ou de não cumpri determinado dever(...) ver tb. sinonímia de ardil e mentira (...) ver (...) antonímia de verdade. A fraude eleitoral aqui neste caso não se trata de um desvio procedimental, mas de fato de que as eleições senatoriais que se realizaram no Haiti neste domingo, dia 19 de abril de 2009, são uma mentira, um ardil, um ato enganoso que visa ludibriar outrem.


Exponho a minha visão dos fatos que pode contrariar o que alguns jornais virão dizer, que “a despeito de alguns incidentes isolados, o pleito tenha ocorrido dentro da normalidade democrática e num clima de respeito às leis”. É possível que se diga isso e, de fato, isso não contraria demais a verdade, não fosse uma série de movimentos que antecederam o presente processo eleitoral, que maculam qualquer idéia de democracia e de justiça, que ferem os princípios liberais-democráticos tão caros à cosmologia ocidental, que parecem que aqui no Haiti chegaram ao paroxismo de sua mentira.


Retorno um pouco no tempo para que possamos discutir de fato como manobras “democráticas” e de caráter “legalista” roubaram deste pleito o mínimo de legitimidade que ele pudesse ter. Em primeiro lugar, as divisões e problemas internos da maior força política do país, o Fanmi Lavalas, partido que dá sustentação ao deposto presidente Jean Bertrand Aristide, seu principal líder, provocaram a apresentação por parte deste grupo político de três listas de candidatos diferentes, o que impediu o registro de suas candidaturas para uma participação nestas eleições senatoriais. Explicando melhor, seria como se o PMDB apresentasse três listas de candidatos diferentes, uma da facção governista, outra da facção de oposição e outra de uma terceira, que se classificaria como independente. Como a lei eleitoral brasileira não permita isso, uma das três listas seria aprovada ou a participação do partido seria negada, e o partido não poderia apresentar candidatos. É claro que tal impasse produziria uma crise política sem precedentes no país, e uma eleição que deixasse de fora aquele que se supõe o maior partido político do país geraria infinitas distorções no quadro eleitoral.


Do ponto de vista legal, no entanto, não haveria nada demais em negar tal participação, posto que fosse uma flagrante violação da lei eleitoral. No entanto, a política é uma arte, não no sentido da tradição platônica de um conjunto racional de técnicas visando um fim prático, mas no sentido aristotélico, que se opõe à ciência, uma habilidade particular de produzir um conhecimento não necessariamente aplicado. Em outras palavras, as artes da política nem sempre podem e devem se submeter ao legalismo exagerado, mas considerar os diversos aspectos envolvidos em uma questão: a “fragilidade” da democracia no Haiti não deveria permitir que a força política de maior apelo e expressão popular ficasse de fora de nenhum processo político, sobretudo de um processo eleitoral, sob pena de deslegitimar quaisquer atos que se realizem.


Retirar o Lavalas de Aristide da eleição é negar a possibilidade de um processo político verdadeiramente democrático no Haiti. Qualquer explicação de caráter legal para isto reforça a mentira e a fraude da democracia no Haiti. Sem Lavalas e Aristide não há possibilidade de produzir qualquer transformação política séria no país. Não sou defensor do ex-presidente Aristide, pelo contrário, aqui neste mesmo blog sempre expus a minha percepção sobre as suas ambiguidades e seu caráter (com a licença do termo) “populista”. Porém, também nunca ousei aqui negar o valor e a importância de sua popularidade junto às massas dos bairros populares e favelas do Haiti. E reconhecendo isso, penso que a comunidade internacional ao aceitar a ausência do Lavalas na eleição cometeu um erro fatal: deslegitimou o processo eleitoral que era deflagrado com o registro das candidaturas.


Durante esta semana circularam em diversos lugares do país, sobretudo nas regiões onde o Lavalas seria a maior força política, uma série de panfletos (foto) com ameaças de violência contra quem participasse do processo eleitoral. O Lavalas realmente estava organizando suas bases políticas para enfraquecer o processo eleitoral, inclusive através de declarações atribuídas a Aristide de que estas eleições não eram legítimas e que se fizesse neste dia uma jornada de reflexão junto às famílias, que não saíssem às ruas para votar, que permanecessem em suas casas refletindo sobre os rumos da democracia e da política no Haiti. De fato, a operação que seria deflagrada pelo Lavalas chamava-se Bay lari la blanch (traduzido “Deixar as ruas vazias”), e tal nome foi apropriado pelos responsáveis por supostos panfletos que ameaçavam de morte qualquer um que saísse às ruas para participar da eleição. A principal recomendação era que as pessoas colocassem seus nomes nas solas dos sapatos, para que em caso de morte fossem reconhecidas.


Conversando com algumas pessoas durante a semana, perguntei por que muitos não iriam votar. A maioria afirmava que não acreditava nos políticos, e sendo o voto facultativo, estes preferiam ficar em casa no domingo, sem sair às ruas. Alguns falaram das ameaças em seus bairros, locais onde o Lavalas seria a força majoritária e que, portanto, não era conveniente participar da eleição. Esperava, no entanto, que no domingo o quadro fosse diferente, pelo menos entre aqueles que se alistaram para votar. Ao ouvir o rádio pela manhã, percebi que muitas pessoas não sabiam onde seriam seus locais de votação e, para piorar, houve a informação de que os tap taps e caminhonetes não poderiam circular no domingo da eleição, e as motocicletas foram interditadas de circular na noite de sábado. Logo, as pessoas além de não saber onde votar, não havia meios de transportes disponíveis para se deslocar rumo às suas seções eleitorais.


Não bastasse isso tudo, o presidente do país, René Garcia Preval, às vésperas da eleição, deu uma declaração de que os cidadãos que não quisessem ir votar tinham este direito e que participaria de eleição quem quisesse. Tal declaração não seria problema, se não fosse Preval o Supremo Mandatário da Nação, e não desse uma declaração que deslegitimava o processo eleitoral que se realizaria no domingo. Embora a Primeira Ministra Michelle Pierre-Louis tenha reforçado a importância da participação nas eleições, o estrago já estava feito: nem mesmo os políticos do país acreditam no papel do processo eleitoral.


Tudo isso poderiam ser ilações de um observador distante dos fatos, que estaria tirando conclusões a partir de suposições e idéias distantes da realidade. Porém, ao sair à rua numa viatura da Embaixada do Brasil no Haiti, na condição de observador internacional, tive a oportunidade de falar diretamente com a população envolvida na eleição, falei com pessoas que atuavam como mesários, chefes de seção e, especialmente, com eleitores (ou “não eleitores”) presentes nestas seções eleitorais.


Na primeira ida a uma seção eleitoral em um prédio onde funciona oanexo da previdência social e uma unidade da Universidade do Estado, no Champ Mars, fiz algumas perguntas, e descobri que uma seção eleitoral tinha apenas 07 (sete) eleitores inscritos. Neste local pude ainda ver (e fotografar) uma cédula eleitoral. As urnas são transparentes e pode ser visto quantos votos há no seu interior. Algumas pessoas me pediram dinheiro e fizeram piadas e gozações com o grupo de blancs ali presente.


Fomos então à Faculdade de Medicina, onde estavam concentradas outras zonas eleitorais, lá conversei com mesários também, e foi lá que descobri que os mesários não estão inscritos para votar e, a maioria deles está trabalhando na eleição por conta do pagamento que foi oferecido aqueles que trabalhassem na eleição. Só então entendi porque algumas pessoas me interrogaram “porque eu não ofereci este trabalho para eles”, ainda que lhes explicasse que estava como voluntário, que aceitara um convite do Embaixador. Nesta seção, no entanto, havia mais de 400 (quatrocentos) inscritos para votar, porém, por volta das 11:00 h da manhã houvesse apenas duas pessoas comparecido para votar.


De lá saímos para a região de Delmas 19, onde encontramos com uma guarnição militar dos Fuzileiros Navais brasileiros. Dali, nos encaminhamos para a região próxima ao Carrefour Trois Mains, num grande prédio anteriormente abandonado, ocupado, onde nos pilotis há uma grande zona eleitoral. Neste lugar fomos abordados por um sujeito baixinho, irritado, que começou a falar conosco: “Sem Aristide, não há eleição. Sem Lavalas, a eleição é uma mentira. Queremos que Aristide volte. Se ele voltar, o país vai se libertar, o país vai melhorar. Aristide é a vida!”. Fiquei um pouco impressionado, e mais ainda assustado, quando fui percebendo que se formava uma roda à nossa volta. E as pessoas reforçavam o que ele dizia. Um pessoa que estava conosco perguntou, já que ele não acreditava no processo eleitoral, o que estava fazendo ali? Eu não respondi e nem fiz tal pergunta. Achei que ela insultava o homem.


Fomos ainda a duas escolas na região. Os mesmos discursos. Numa delas, porém, fomos abordados, eu e uma colega, por uma repórter da Associated Press. Compreendendo o protocolo, sabendo que o Embaixador era o chefe da equipe, perguntei a um dos seguranças se nós poderíamos falar. Minha colega se recusava a falar, porém, o segurança se antecipou dizendo que não poderíamos falar com a imprensa, que deixássemos o Embaixador falar. Sinceramente, fiquei um pouco aborrecido com aquilo que interpretei como algum tipo de censura, pois realmente o que vira até ali, deslegitimava totalmente o processo eleitoral. Sabia que não devia falar isso, porém, as perguntas da repórter tornavam mais claro aquilo que vinha percebendo: ela perguntou se estávamos cientes de que no Departamento Central as eleições haviam sido canceladas por conta de alguns incidentes e pela total falta de quórum. Saí dali realmente irritado com tudo. Na escola seguinte, permaneci sentado num banco, sem ir às seções eleitorais. Refletindo. Dali iríamos para a cidade de Cabaret, na rota para Gonaives.


Em Cabaret, por fim, mais um encontro interessante com a população. De novo, não entrei nas seções eleitorais, que em todos os lugares pareciam esvaziadas e sem qualquer interesse. Veio em minha direção um homem falando em créole. Boa parte das pessoas não sabe que falo (com relativa fluência) esta língua. Então, começam a falar a esmo, como se eu não lhes compreendesse. No entanto, ao lhes perguntar, sempre em créole, o que estão dizendo, começam a falar, primeiro em francês, que é quando lhes digo que podem falar em sua língua, que sou capaz de compreender. Então as coisas se revelam...


Primeiro, o sujeito começou atacando o processo que excluiu o Lavalas, dizendo que ele era vazio e sem propósito, que não pode haver eleição sem o Lavalas. Mas isto não seria o mais importante, começou a falar dos candidatos a senador, que não eram conhecidos, que vieram à cidade uns poucos dias antes e que não eram conhecidos, por isso, como votar? Logo após, juntou-se um outro homem, mais tranquilo e falando de forma bastante esclarecedora sua posição quanto ao processo eleitoral. Disse que apesar de não ser Lavalas, achava que não podia haver eleição sem este partido, e mais ainda, que a forma que as eleição foi feita, de maneira isolada para senador, não havia qualquer chance de que as pessoas conhecessem os candidatos. Falou que quando as eleições são casadas (majistrat – prefeito, deputados e senadores) há possibilidade das lideranças locais apoiarem candidaturas e, com efeito, este apoio se traduz numa relação de confiança e credibilidade dos candidatos a senador. Ele afirmou que esta eleição “isolada” não podia ter alguma relação entre a população e os candidatos. Depois o primeiro retornou falando de Dessalines, que “somos um povo livre, que o sangue de Dessalines corre em nossas veias”. Isto, no entanto, soou como uma ironia grosseira conosco, os estrangeiros, pois ele se retirava rindo, enquanto falava estas coisas. Um outro sujeito ainda insistia sobre o Lavalas, dizendo que “Aristide deve voltar”.


A conclusão de toda esta primeira experiência como “Observador Internacional” foi impressionante. Em primeiro lugar, estas eleições são realmente uma armadilha cruel, cujo resultado, seja ele qual for, sempre reforçará estigmas e visões distorcidas sobre o Haiti: “os haitianos não participam da política, abandonam o país a própria sorte, e não tomam para si o dever de transformar a sua vida”. Esta é uma mentira, que este processo eleitoral não sustenta. Pelo contrário, estas eleições foram feitas desde o seu início para fracassar, interesses diversos tanto das forças políticas locais – entre elas, curiosamente do próprio Lavalas, por razões distintas, da comunidade internacional que se esmera em reforçar a farsa democrática ao redor do mundo, da ONU e OEA, que mantém o “Circo Haiti” de pé, fazendo o seu espetáculo de “manutenção da paz mundial”, enfim, das aspirações do chamado “Mundo Livre” que precisa da “democracia” para manter a ordem no mundo.


Em segundo lugar, as causas endógenas: o povo haitiano não participa do processo. Os partidos pouco representam no panorama político, não há representatividade, a despeito de haver dezenas de organizações políticas espalhadas por diversos lugares do país. E mesmo os indivíduos, atores políticos isolados como o Presidente Preval, o ex-primeiro ministro Alexis, figuras como o Senador Boulos, a ex-candidata à Presidência Mirlande Manigat também tem pouca representatividade, senão em setores ou grupos isolados. A única força política que tem representatividade do ponto de vista coletivo é o Lavalas e o único ator individual representativo é o próprio Aristide. Fora disso é necessária uma longa construção e um amplo debate. E por isso, mais uma vez, será penalizado o povo haitiano, “que não está habituado às instituições democráticas, que não tem os saudáveis hábitos do voto, da organização política, dos partidos organizados, etc., e que por isso não está pronto para se dirigir a si mesmo e aos seus destinos”. Caímos novamente no silogismo cruel e estigmatizante que sempre coloca o Haiti no lugar da barbárie, da recusa do mundo ocidental livre.

Por fim, reitero aqui a minha percepção de que o Haiti nem de longe é este inferno. Os erros são do governo local e talvez do próprio povo. Estes erros, porém, são também da chamada comunidade internacional que precisa legitimar o Haiti da forma que mais lhes interessa: um lugar onde ela precisa atuar e reforçar a sua importância e seu papel na defesa do chamado mundo livre. Essa é a grande fraude eleitoral que está em jogo.

Abraços a todos, feliz da vida com o Mengão na final do Carioca, quem sabe, rumo ao Penta-Tri.



P.S.: Observadores Internacionais, tal como os duendes, existem... O importante é você acreditar neles...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

De volta: O Haiti nosso de cada dia

Muita gente no Brasil sabe que minha volta ao Haiti se deu "meio contra a minha vontade"...
Não, isso não é verdade... voltei porque quis... Mas não queria tanto quanto antes...
De volta, começo a constatar, com certa irritação que todos têm teorias sobre o Haiti, inclusive eu mesmo, e cada um quer provar, quase sempre com dados empíricos, que está coberto de razão.
O Haiti não tem solução... "Eles" são diferentes de "nós"... "Eles" são assim mesmo... "Temos que ensiná-los"... Eles não estão "prontos para a civilização"...
Sim... Ouço por aqui coisas de arrepiar até um evolucionista empedernido... A diferença está presente e o mundo colonial está aqui com toda a sua força...
Há as teorias mais elaboradas, é claro, mas o senso comum grosseiro se resume a isso: uma grande divisão: o "Nós" civilizado e o "Eles" bárbaros...
Será possível que em pleno século XXI, depois de Lévi-Strauss declarar peremptoriamente, bárbaro é quem acredita na bárbarie, que o mundo insista em acreditar em algumas formas de distinção e, por que não dizer, de exclusão que se sustentem nesta forma de pensar?
Deixem o Haiti em paz. Partam daqui toda a cooperação e ajuda humanitária, a Minustah e todas as ongs... O que será do Haiti? Não sei, mas será uma excepcional chance de provar que qualquer divisão desta ordem é um acinte contra qualquer humanismo possível.
Estou irritado com os estrangeiros do Haiti, e neles me incluo, porque exotizamos o que é tão natural em qualquer lugar do mundo, porque aqui queremos achar o "exótico" e o "primitivo". O Haiti não tem nada de especial e, por isso, é muito especial... Ele apenas nos permite olhar para nós mesmo com menos condescendência, permite-nos sermos um tanto mais cruéis com o que chamamos "civilização". No Haiti as feridas estão abertas e sangrando, enquanto em nossas casas escondemos sob a cicatriz nossas carnes podres... No Haiti não, a ferida pudenda está exposta...
Quem admite olhar as suas próprias feridas? Suas mazelas e suas podridões?
Ninguém...
Azor e seu Rasin Mapou cantam: Boukman, w pa fè Bwa Kaiman pou donne peyi nan men étranger. Peyi sè pa nou. (Boukman, você não fez Bois Caiman para entregar o país nas mãos dos estrangeiros. O país é para nós)
Será????
Abraço

terça-feira, 22 de julho de 2008

Fabricando ditadores?

Na última postagem falei de Aristide, da minha interpretação sobre os eventos que fomentaram a sua queda. Outro dia, em uma conversa com um amigo pelo MSN, começamos a discutir sobre como o país poderia organizar um concerto de forças políticas para promover o desenvolvimento. Fiquei angustiado, pois não conseguia explicar a este amigo o que ocorre aqui. Primeiro, por uma total dificuldade de conhecer de fato quais as forças políticas que estão sob o tabuleiro, jogando. É fácil saber que Aristide e o Lavalas (seu ex-grupo político) jogam um papel decisivo, pelo seu peso como movimento de massa, no entanto, não conseguia identificar as forças políticas.
Quando faço a mesma pergunta aos meus interlocutores haitianos, as respostas são difusas, todos dizem que há partidos, mas deputados e senadores não são senão "homens de negócios, com interesses muito particulares e pouco interesse pela coisa pública". Insisto em perguntar pelo "espírito público", pela "idéia de república" e pela "democracia", alguns destes interlocutores só faltam rir de mim. No entanto, parece que há atores fortes no cenário político. Isso não impede, porém, que o país esteja sem um primeiro ministro há quatro meses.
Há coisa de alguns meses, pouco antes das manifestações políticas contra "Laviche" (La vie chère), o elevado preço dos alimentos, sobretudo do arroz, essencial na dieta haitiana, que acabaram por derrubar o ex-primeiro ministro Alexis, houve um intenso debate político em torno do fato de um senador daqui possuir dois passaportes ou, na verdade, pelo fato de ter nascido nos EUA, sendo filho de haitianos e que vive no Haiti, o que lhe possibilitou ter dupla nacionalidade. Este debate que se prolongou por semanas, no meu entendimento, levantava uma falsa questão, posto que boa parte de deputados e senadores do país estão nesta mesma situação: possuem um passaporte de outra nacionalidade. Aliás, imagino que boa parte dos ricos do país tem essa mesma condição: um pé do lado de fora do país. A polêmica acabou por cassar o tal senador, que supostamente seria um forte candidato à presidência, um grande empresário com influência significativa no ramo de telecomunicações local.
A queda de Alexis, que veio logo depois desta longa polêmica, nem mobilizou tanto senadores e deputados quanto o debates da dupla nacionalidade. Espanta, portanto, que após quatro meses, os parlamentares locais, tão empenhados em garantir a pureza das casas legislativas do país, evitando que "alguém que possa ser estrangeiro" ocupe posições chave na política do país, não demonstrem o mesmo empenho para escolher o novo primeiro ministro. Na verdade, demonstraram este "empenho" após a primeira indicação de Preval, o presidente do país, para o posto, recusado exatamente por "não conseguir provar a ascendência haitiana de seus pais".
Agora, Preval faz a sua segunda indicação, a intelectual Michelle Pierre-Louis. Logo que cheguei aqui, estive em um debate na Université Quisqueya, onde esta falara, fazendo uma interessante crítica aos processos de ocupação do país por forças militares estrangeiras e as quinze missões das Nações Unidas no país no período entre 1987 e 2008. Crítica da presença estrangeira no país, ela crê que o país deve procurar saídas para as crises sem recorrer à "ajuda" externa. Não descarta, porém, neste momento ainda a presença da Minustah. Ela inclusive destaca que todas as intervenções da ONU no país foram solicitadas pelos governos locais. Sua indicação, entretanto, tem sido contestada por alguns, com base em acusações de uma suposta homossexualidade, o que lhe impediria de ter a unanimidade dos votos no senado, essencial para sua homologação como primeira-ministra do país. Num programa de rádio cheguei a ouvir as palavras de um deputado que dizia que "ela não poderia ser escolhida, embora não tenha na da contra os homossexuais, não crê que este tipo de pessoa possa estar à frente de um país". Na câmara dos deputados, seu nome passou com maioria absoluta dos votos, com apenas um voto contra e abstenções de algumas forças políticas. Espera-se que o senado cumpra o seu papel e finalmente, após quatro meses sem governo, homologue o nome de Pierre-Louis no posto de primeiro ministro.
O título da postagem é, de fato, uma provocação...
Provocação diante de certas situações que tenho presenciado no Haiti, onde a saída pela força quase sempre se apresenta como solução possível, onde a ausência de diálogo e de uma interlocução responsável obriga alguns atores sociais a apelar para condições onde seja necessária uma imposição pela força. Quando analisei a situação que ensejou a queda de Aristide, percebi que é possível vislumbrar um quadro curioso: um presidente democraticamente eleito, que conta com forte apoio da massa, talvez da maioria da população (pobre, principalmente) do país, é obrigado a renunciar, não sem antes armar esta massa de apoiadores para garantir o exercício de seu mandato. Sua "renúncia" é cercada de controvérsias: há uma tese de um "seqüestro" que motivou sua saída do país, seus milicianos armados são líderes criminosos das favelas e bairros pobres da capital do país, Aristide é recebido por líderes da esquerda e de facções democráticas diversas como um grande líder político. Quem é afinal, Jean Bertrand Aristide?
Eu não ouso responder, continuo com dúvidas, mas cada vez mais me parece que as resistências de alguns setores a ele forjaram a criação de um ditador. Tal como acusam Chavez de populista e proto-ditador (este, aliás, grande defensor de Aristide), porque governa com mecanismos de democracia direta e popular, não seria possível pensar em Titid (como é chamado pelo povão) desta maneira? Não sei...
O que sei é que se fosse interesse das forças políticas locais articular um concerto de forças, um pacto social e político, seria essencial que um dos interlocutores fosse Aristide, que parece ser o ator político mais evidente daqueles que são colocados em cena por aqui. O amigo com quem conversava objetou sobre o papel dos intelectuais daqui. Se não é possível identificar atores no cenário político, de fato, é fácil fazê-lo entre os intelectuais. Entretanto, as clivagens entre estes são realmente perturbadoras e impossibilitam muitas vezes o diálogo.
A indicação de uma intelectual, por exemplo, não mobilizou os intelectuais daqui em sua defesa contra a onda de rumores em torno de sua vida pessoal, e foi preciso que a reação viesse de intelectuais haitianos radicados no Canadá e nos EUA, através de um documento divulgado pela imprensa, para que os que estão aqui começassem, de modo tímido a tomar uma posição. Ouvi de alguns que não dariam uma resposta a tais rumores, exatamente para não motivar o debate em torno da vida pessoal da (futura) primeira ministra. Não sei dizer se concordo com tal atitude, que mais me parecia omissão diante dos fatos. E quando perguntei sobre a sua indicação, as respostas foram sempre evasivas, pois acham que ela não tem meios (e nem competência) de implementar políticas sérias para o desenvolvimento do país.
Assim, cada vez mais percebo que as muitas clivagens no âmbito das elites, econômicas e intelectuais, entre políticos, por conta de uma permanente indefinição de quais são as reais forças que jogam o jogo da política, e a principal e maior de todas, entre estes e a maior parte da população do Haiti, impedem a possibilidade de pensar um caminho para o país, a busca de soluções para os problemas energético, ecológico, econômico e social do país. Iniciativas como a criação de um instituto de pesquisas para o desenvolvimento, uma espécie de think tank para o país, esbarram no jogo de vaidades e interesses pessoais dos diversos grupos, e não prosperam porque há uma espécie de sabotagem interna que impede qualquer projeto político-intelectual mais ambicioso de avançar.
E com isso o país perde precioso tempo e seu povo continua na mais absoluta situação de penúria...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Pequenas histórias haitianas...

Catherine e Simone: as duas jovens e o futuro pela frente... Futuro?

Catherine e Simone são duas jovens de Jacmel, são primas. Perto da casa dos vinte anos, ambas já concluíram seus estudos secundários, no entanto, não têm muitas perspectivas sobre o que farão no futuro mais próximo... Tentar uma faculdade seria bom, no entanto, são poucas as vagas na Université d’Etat e uma universidade particular é cara. A escolha por uma faculdade em Port au Prince ainda implicaria em custos maiores, como habitação, alimentação, entre outras coisas. Isso demandaria, talvez, trabalhar enquanto cursam a faculdade. E os empregos simplesmente não existem em Jacmel e são escassos em Port au Prince. Perguntam-me se existem faculdades e empregos no Brasil, se é fácil fazer uma faculdade... Respondo-lhes que talvez... Isso depende... Mas no meu íntimo, depois de tantos anos, começo a crer que as perspectivas no Brasil para um jovem que termina o secundário, que são tão poucas, são assustadoramente maiores do que as daqui... Ambas falam de ir para “Saint Domingue” (como chamam por aqui a República Dominicana) seguindo a trilha de tios e do irmão mais velho, atrás de emprego... Para talvez não voltar...


Wilson é estudante de ciências sociais. Fala seis idiomas, entre eles o português, além do créole... Aliás, não são poucos os poliglotas por aqui. Não raro é possível encontrar gente que fala no mínimo duas línguas além do créole (normalmente o francês e mais uma, quase sempre espanhol ou inglês), é claro, entre os que possuem pelo menos o nível secundário. Wilson está no fim de seu curso. Morador de Martissant, uma das zonas mais pobres e violentas dos arredores de Port au Prince, ele gostaria de fazer um mestrado ou doutorado no exterior, mas antes precisa de dinheiro para terminar o seu curso, por isso se vira em diversos “bicos” como intérprete e tradutor para sobreviver. Sabe que só conseguirá alcançar seu objetivo se tiver uma bolsa de estudos e um bilhete para sair do país... Para sair e talvez não voltar... Seu irmão mais novo é um ativo militante de uma igreja protestante e Wilson torce para que ele siga o caminho missionário para sair do país... E, provavelmente, não voltar...


Pierre é professor de línguas... Formado em Letras e História, leciona em uma pequena escola na localidade de Carrefour Durandisse, na rota entre Leôgane e Jacmel. Pierre fala nada menos que quatro idiomas: créole, francês, inglês e espanhol. Para complementar o baixíssimo salário de professor numa escola comunitária, trabalha à tarde como moto-taxista em Jacmel. Sabe que com sua formação tem poucas perspectivas... Sonha sair do país, para, provavelmente, não voltar...


O “talvez não voltar” sempre aparece como uma possibilidade forte. Afinal, todos falam em voltar. Sobretudo, porque estas idas para o exterior têm íntima relação com o envio de dinheiro para ajudar a família que fica no país. Aliás, esta parece ser boa parte da renda da maior parte das famílias pobres do país. Desde a minha primeira chegada ao Haiti me chamaram atenção duas coisas: o imenso número de lojas de loteria popular, a “borlette”, e as casas de remessa de dinheiro Western Union, Unitransfer, CAM. Algumas destas como a Unitransfer têm tal grau de sofisticação, que oferecem além das remessas de dinheiro, remessas de alimentos, com entrega no local de moradia. A CAM oferece uma chamada internacional gratuita para EUA e Canadá para aqueles que optam por utilizar seus serviços, para confirmar o recebimento do dinheiro enviado.


Ferdinand é técnico de informática, especialista e redes e suporte. Mora já há seis anos no Canadá, em Ottawa. Vem ao país todo ano para três semanas de férias. É um apaixonado conhecedor de nosso futebol. Vem ao país especialmente para matar a saudade da comida, do calor, da amizade e de uma alegria que, segundo, ele parece cada vez mais distante do dia a dia dos haitianos.


Muitos falam de uma permanente degradação da vida e do espaço público. Alguns mais velhos, curiosamente, elogiam a ordem e a organização da vida pública sob o regime ditatorial de Duvalier. Falam até com certo saudosismo das qualidades das condições de vida e das vias públicas, do controle da ocupação das ruas, sobre o fato do país não ter problemas com o abastecimento de energia elétrica. É claro que poucos consideram os aspectos que ensejaram a explosão demográfica que concentrou um quarto da população do país na capital nos últimos vinte anos.


Já entre as classes populares de Port au Prince é muito comum encontrar gente que apóia claramente o presidente deposto Jean Bertrand Aristide. Em Jacmel, não se vê tanta gente que apóie Aristide, mas na capital é interessante notar a força que este ainda exerce tanto sobre seus partidários mais inflamados, quanto para a gente comum das ruas. Consideram que Aristide tinha uma preocupação particular com os problemas das classes populares, e que sua queda beneficiou apenas determinada parte da burguesia nacional. Entre estes, mas, sobretudo, entre uma grande parcela dos intelectuais, Aristide é quase como um conjuro, um espírito maligno, algo a ser extirpado e exorcizado do país. Não há espaço para ponderações, a conversa começa a partir do ponto de que Aristide é um inimigo do país, um ilusionista perverso, que criou, tanto perante a população local, quanto perante uma boa parcela da comunidade internacional, a imagem de um líder popular, de líder progressista.


Estas reações apaixonadas vão desde uma (pelo menos para mim, por enquanto) não comprovada ligação direta entre o ex-presidente e o tráfico internacional de drogas, que teria tido sua vida facilitada durante seu governo, até os reais escândalos que envolvem o enriquecimento pessoal de um ex-padre católico por conta dos processos de privatização das telecomunicações no país. Seu carisma, no entanto, impressiona. E estas reações apaixonadas, de parte a parte mais ainda. Há gente que acuse seus defensores de “mechants”, criminosos, que estariam defendendo o interesse das gangues violentas que explodiram nos bairros pobres em 2004 após a sua partida.


Este processo, aliás, é curioso... Dou-lhes a minha interpretação, que muito pouco tem a ver com uma “verdade dos fatos”, mas que se apóia numa percepção impressionista do processo que antecedeu a saída de Aristide e tudo que ocorreu na sua seqüência. Essa impressão se tornou forte especialmente ao assistir alguns documentários que foram no período dos últimos quatro anos. Essa percepção é corroborada através de conversas com pessoas de extração variada no país, intelectuais, militantes estudantis, “gente comum”, etc.


Os documentários que assisti se dividem exatamente por esta tensão, por este conflito em escolher um lado, e levam-nos a discutir o já tão debatido tema da neutralidade jornalística, da “verdade dos fatos”. O filme de Nicolas Rossier, um suíço radicado no Canadá, por exemplo, é questionador e polêmico para mim, porque foi um dos poucos filmes que se pergunta até onde a queda de Aristide não obedeceu senão a outros interesses que muito pouco tem a ver com a “vontade do povo”. O filme, intitulado “Haïti, un chaos interminable”, foi exibido inicialmente na TV canadense, mas depois reeditado, com cenas acrescentadas, tais como uma entrevista exclusiva com Aristide no exílio, e se encontra na internet com o nome de “Une revolution sans fin – Aristide et l’avenir incertain d’Haïti”.


Outro documentário interessantíssimo é “GNB kont Atilla”, de Arnold Antonin. Este filme mostra a interessante luta dos estudantes contra Aristide nos momentos que antecederam sua queda. Embora seja de tendência radicalmente oposta ao primeiro, é um relato bem interessante sobre toda a movimentação de setores politicamente organizados para resistir a uma suposta tentativa de golpe da parte de Aristide. A idéia de que Aristide pretendesse ficar no poder por mais do que os cinco anos constitucionalmente estipulados foi exatamente o leitmotiv da construção dos argumentos em sua oposição. O filme ilustra, a meu ver, que o medo difuso de uma suposta ditadura comandada por partidários de Aristide foi o motor da organização de uma forte resistência de diversos setores e organizou numa outra ponta resistência armada. De outro lado, o filme mostra também a organização dos estudantes e sua luta contra uma polícia violenta e despreparada e, sobretudo, contra os partidários de Aristide, os “chiméres”, chefes locais de bairros pobres e favelas, que se tornam chefes de gangues criminosas. Este é o tema de outro documentário, “The Ghosts of Cité Soleil”, exibido no Brasil como “As gangues de Cité Soleil”.


Dirigido por Asger Leth e produzido pelo rapper Wyclef Jean (ex-Fugees), o filme é um interessante relato do processo de ascensão das gangues e da queda de Aristide. Acusado por intelectuais daqui de “romantizar as gangues”, o filme mostra, no entanto, um retrato significativo do processo que tirou Aristide do poder. Do meu ponto de vista parece ser claro que Aristide não contando com uma força armada nacional, para garantir seus poderes constitucionais (as forças armadas do país foram dissolvidas por ele em seu primeiro mandato presidencial, logo após a sua volta em 1994, com o fim do golpe de Estado), não podendo confiar na Polícia Nacional Haitiana, ainda sob forte influência dos militares golpistas de 1991 e mesmo dos Tonton Macoutes, do regime de Duvalier, o presidente se vê obrigado a formar uma espécie de “guarda de segurança particular” com seus partidários mais inflamados dos bairros pobres, em especial, de Cité Soleil. Ao armar estas “gangues” dos bairros pobres, Aristide acende o estopim que vai detonar a sua queda, pois será justamente daí que virá a desconfiança sobre um projeto de se manter no poder indefinidamente.


Há ainda um estranho filme, sem créditos, sem diretor ou qualquer referência, intitulado “Aristide the Truth”, que é feito em seqüência. Pude ver apenas uma parte que diz respeito ao golpe de 1991 e à volta de Aristide em 1994, já sob o apoio de Bill Clinton e dos “marines” americanos. Sua seqüência contaria exatamente a história da volta ao poder e da queda em 2004, mas ainda não encontrei-a disponível para venda. O filme tenta ser “imparcial” ao mostrar as ambigüidades da figura de Aristide. Sua oscilação entre um discurso radicalmente contra os EUA, enquanto padre ligado à teologia da libertação, e sua volta ao poder sob os auspícios de Bill Clinton, presidente do país que combatia em seus antigos discursos. O filme também mostra as ligações entre os militares golpistas de 1991 e a famosa “Escola das Américas”, como Raoul Cedras, presidente golpista, e seus assessores foram formados nesta, assim como uma suposta influência de George Bush Pai no processo que ensejou o golpe militar. Aliás, curiosamente, o filme de Nicolas Rossier faz uma associação entre o fato do golpe de 1991 contra Aristide ter se dado no governo de Bush pai, e a queda de 2004, foi sob o governo de Bush filho. É curioso, no entanto, que uma força internacional organizada por EUA e França tenha se antecipado à formação e aprovação do mandato da Minustah pela ONU, visando “garantir o governo provisório e evitar eventuais violações dos direitos humanos no país”.


Como disse todos estes filmes levam a uma única conclusão: a ambigüidade da figura de Jean Bertrand Aristide. Sua força junto à maioria da população impressiona. Mas ao mesmo tempo, falar seu nome é como conjurar um espírito maligno. Seus partidários evitam falar, mas é evidente que eles são uma maioria significativa, ao mesmo tempo, que aqueles que são contra, fora dos círculos da elite local e dos intelectuais, raramente se manifestam, temendo reações inflamadas de seus partidários. E isto nos leva de volta a Cathy, Simone, Wilson, Pierre e Ferndinand...


O que poderia fazer estas pessoas desejarem ficar em seu país?


Não sei. Lembro que numa determinada época, era forte o fluxo migratório de brasileiros para os EUA, e ainda hoje não é nada desprezível. Mas ao mesmo tempo, vejo que ao longo dos últimos 20 anos foram inúmeros concursos públicos, a despeito dos ferozes ataques, as universidades públicas têm, não apenas aumentado o seu número de vagas, mas iniciado um controvertido processo de políticas de inclusão, o atual governo tem investido massivamente na criação de novas universidades públicas e fortalecido a pós-graduação através de bolsas e editais de pesquisa, a inclusão de setores através do consumo e do crédito às classes D e E tem propiciado uma rota de crescimento ao país, o emprego cresce, ainda que timidamente...


Penso nisso e olho para o fato de que, a despeito das várias críticas à classe política do Brasil, isto decorre de um PROJETO DE NAÇÃO. Em que pesem as críticas à má formação de nossos parlamentares, ao despreparo de nossa classe política e a uma suposta corrupção endêmica desta, todos estes problemas são contrapostos exatamente ao alto nível de uma parcela importante da elite parlamentar, à formação de quadros técnicos em alto nível nos últimos 40 anos, a uma burocracia estatal capaz de fazer a máquina pública funcionar (sim, o Estado no Brasil, funciona e muito bem em muitos aspectos) e o aproveitamento destes quadros em setores chave ao desenvolvimento do país, bem como as recentes transformações, tal como a recuperação do rumo do investimento público, sem o qual não é possível haver desenvolvimento algum.


Perguntam-me meus amigos haitianos se tem emprego no Brasil?

Não sei...


Sei que o país deles necessita urgentemente de um projeto capaz de oferecer perspectivas para eles que, mesmo que saiam, tenham como voltar e como trabalhar no país.


Este, aliás, é o problema de Ferdinand, de Pierre e de Wilson quando conseguir de formar... São técnicos formados com bom nível de preparação para serem incluídos no mercado de trabalho, no entanto, a pergunta que ocorre é qual mercado de trabalho? Ferdinand conseguiu sair para o Canadá, país que é constantemente acusado por aqui de “roubar cérebros”. Mas e os outros dois? Quais serão as perspectivas de trabalho para estes aqui no país? E as meninas, que ainda nem chegaram à universidade?


Recentemente, um rapaz me abordou numa festa junina realizada pela Embaixada Brasileira, que reuniu não apenas brasileiros que estão no país, trabalhando na cooperação internacional, na embaixada, soldados da Minustah, mas também os alunos haitianos de língua portuguesa do CEB – Centro de Estudos Brasileiros. Falando um correto português, disse: “Senhor, eu gostaria de saber como eu faço para trabalhar para Minustah. Além de falar português, eu falo espanhol e francês. O senhor pode me apresentar o chefe da Minustah?”. Sem graça, lhe sorri amarelo e disse-lhe que não podia fazer muita coisa por ele, que sou apenas um estudante brasileiro aqui no Haiti. Alguns minutos depois seria apresentado a um dos comandantes brasileiros aqui no país, que me deu um cartão e disse que o procurasse diante de qualquer problema ou necessidade.


Fiquei com o cartão na mão, pensando no rapaz... Claro que não podia mesmo ajudá-lo. Mas fiquei assustado com isso, com essa falta de perspectiva de trabalho e com essa abordagem tão direta e sincera pedindo um emprego no meio de uma festa. Em que pese o inconveniente de tal atitude, ela é no mínimo corajosa, e pensei no que leva alguém a agir de tal maneira. Não achei uma resposta.


Assim como não tenho uma resposta quando pergunto às minhas amigas Catherine e Simone o que elas pretendem fazer no futuro... Elas respondem que não sabem, e perguntam, brincando, se quero levá-las para o Brasil quando eu voltar... Respondo, também brincando, que sim... Elas talvez levem a sério sua pergunta e a minha resposta... Não sei... Tal como Aristide e todas as coisas aqui, mas talvez todas as coisas da vida, tudo é muito ambíguo...